7 de abril de 2026
Comunicação 1º ENSCA

De 25 a 27 de março, Luziânia (GO) tornou-se o centro de fortalecimento da convergência entre saúde e campesinato com o I Encontro Nacional Saúde Camponesa e Agroecologia realizado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Cerca de 70 agricultores e agricultoras de 16 estados, ao lado de pesquisadoras e pequisadores de unidades da Fiocruz, como a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV), a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), a Fiocruz Brasília, a Fiocruz Pernambuco e o Observatório Nacional de Saberes e Práticas Tradicionais, Integrativas e Complementares em Saúde (ObservaPICS), reafirmaram um pacto pela vida.
A manhã que abriu os trabalhos foi marcada por uma mística em solidariedade a Cuba, que enfrenta neste momento uma das maiores crises energética e econômica causadas pelo bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos. ‘Médicos, não bombas’, a frase extraída de um discurso de Fidel Castro lembrou que a verdadeira saúde se constrói com mãos que cuidam, não com armas que destroem. Na sequência, a mesa de abertura do evento reafirmou que o cuidado com a terra é indissociável do cuidado com as pessoas.
Denilva Silva, da coordenação do MPA, ao assumir a mediação da mesa ao lado de Danúbia Gardenia, da coordenação da Agenda Saúde e Agroecologia da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, trouxe consigo não apenas a palavra, mas a ausência presente. “Quero trazer presente o frei Sérgio, nossa liderança que partiu no início de fevereiro. Se tivesse vivo, estaria aqui conosco, porque faz parte dessa construção.” A memória do frei, segundo Denilva, é de “grande relevância” para o debate da saúde do MPA. E com a cadência de quem sabe que a luta é um rio contínuo, ela entoou: “No coração do Cerrado um encontro vai acontecer, reunindo gente boa que tem muito a oferecer, saúde camponesa com agroecologia a florescer.”

O economista Guilherme Delgado, da Associação Brasileira da Reforma Agrária (ABRA), tomou a palavra com a serenidade de quem acompanhou de perto a última greve de fome de frei Sérgio. “A conjuntura agrária aparece como algo distante, que não tem a ver com o conjunto da vida social”, afirmou Delgado, criticando a invisibilidade do tema agrário no sistema midiático hegemônico.
Para o economista, a equação é simples e radical: é no espaço rural que se definem as condições vitais da população. “Água, ar, alimento in natura. Os três ‘as’”, enumerou. Ele resgatou a etimologia sagrada da palavra saúde: salus, que no latim significa não apenas ausência de doença, mas sanidade e santidade, condição plena para que os três “as” floresçam.
Sua fala ganhou corpo ao anunciar um decreto presidencial assinado na véspera, durante a 3ª Conferência Nacional de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário, sobre governança fundiária. “O objetivo principal é a regularização dos regimes fundiários constitucionais, ou seja, combater a grilagem de terra”, explicou. A proposta de criação de uma Autoridade Fundiária Nacional, com capacidade de regulação sobre terras públicas e privadas, foi descrita como “ambiciosa e desafiadora”.
Delgado trouxe à tona a antiga prática da grilagem, quando documentos falsificados eram colocados em gavetas com grilos para envelhecer o papel, e alertou: o que se vê hoje é uma violência maior, uma grilagem armada e violenta. Ele anunciou que a ABRA, junto com outras organizações do campo, apresentará até 30 de março uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra leis de regularização fundiária em 23 estados e na União, que considera inconstitucionais. Para ele, é preciso que a reforma agrária esteja no centro do debate sobre saúde e campesinato.
Leonilde Medeiros, pesquisadora e professora titular aposentada da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com décadas de dedicação ao campesinato brasileiro, recusou em sua fala a leitura tradicional dos ciclos econômicos (pau-brasil, cana, café, algodão), que valoriza a exportação e que é muito difundida. Ela foi buscar o outro lado da história: o dos invisíveis.
Ela lembrou os três processos fundantes: o extermínio e desterritorialização dos povos originários; a comercialização violenta de povos africanos; e a vinda de camponeses europeus para trabalhar como lavradores. “A questão é: quem produziu comida para as pessoas comerem?”, provocou. A resposta está nas entranhas das grandes fazendas, nos interiores, nas periferias. “A história do Brasil é marcada pela crise de abastecimento de alimentos básicos”, afirmou.
Medeiros também abordou a diversidade do campesinato: desde os colonos subordinados às grandes fazendas no Sudeste, até as comunidades tradicionais no Nordeste, passando pelos migrantes que receberam pequenos lotes e construíram um mundo com suor e desejo de terra. “A marca do campesinato, no período após a abolição da escravidão, é o desejo de ter uma terra, de poder usufruir dela.”
Ela mostrou como a invisibilidade persistiu até os anos 40, quando a luta pela terra começou a se organizar. O golpe militar de 1964, segundo Medeiros, foi uma resposta à proposta de mudança agrária que se avizinhava. O período ditatorial trouxe apagamento das lutas, mas não ausência delas. “Parece que tivemos as Ligas Camponesas e depois um apagamento, e aí surge o MST. Mas na verdade houve resistência, com violência e um silenciamento brutal”, disse.
Foi nos anos 90 que a produção de alimentos virou espaço de disputa. A professora apontou que nesse período o agronegócio passou a ocupar também a produção de feijão, frango e porco. Nesse período, emergiu a discussão sobre alimentação saudável liderada por estudantes e profissionais da agronomia e movimentos de agricultura alternativa. “A questão não é só ter comida, mas que tipo de comida podemos ter”, afirmou Medeiros, conectando o debate à saúde. A Via Campesina é expressão da organização popular e precursora da bandeira da soberania alimentar, ou seja, do direito de os povos decidirem sobre sua alimentação, suas culturas e seus territórios.

A mesa seguiu com a fala de Valter Israel da Silva, que trouxe a força da palavra camponesa em sua essência. “Ser camponês não é profissão, é um modo de vida”, afirmou. Ele apresentou que o campesinato se sustenta em pilares que desafiam a lógica do agronegócio: o horizonte das gerações, a policultura, a autonomia sobre sementes e conhecimento. “O campesinato é uma história de resistência”, resumiu.
Valter fez uma distinção fundamental ao apresentar as três teses da agricultura que hoje disputam sentido no país: o agronegócio, a agricultura familiar e a agricultura camponesa. “Há diferentes modos de ser camponês, identidades diversas”, explicou, mostrando que a diversidade é, ela mesma, uma forma de resistência. E completou: “O que é produzido numa relação de troca com a natureza tem maior qualidade”, uma afirmação que dialoga diretamente com o direito humano à alimentação adequada e com a saúde do território.

Na sequência, André Búrigo, da Agenda de Saúde e Agroecologia da Fiocruz, aprofundou a relação entre saúde e agroecologia com a precisão de quem constrói pontes institucionais. Começou desfazendo um mito: “O Brasil não é um país urbano.” Lembrou que o rural persiste como espaço de vida e de produção, e que é lá que se definem as condições de bem-estar.
“Saúde é bem-estar social”, disse Búrigo, ampliando o conceito para além da ausência de doença. “Um sistema político que o respeita, que não esteja submetido à violência e ao medo da violência.” Elencou direitos fundamentais: direito à casa, ao trabalho, ao salário, à água, a um meio ambiente que permita a existência de uma vida digna. E fez a afirmação que sintetiza o espírito do encontro: “Agroecologia floresce no SUS.”
Para ele, as múltiplas formas de insegurança alimentar no mundo — que não se resumem à fome, mas também à má qualidade do que se comem, produzem doenças crônicas. Por isso, o direito humano à alimentação adequada “é algo que precisamos construir juntos”, um chamado à ação coletiva que une movimentos sociais, academia e sistema público de saúde.

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