1 de fevereiro de 2026

Reflorestar o mangue é reflorestar a vida: a experiência do Projeto Povos das Águas no Quilombo Brejão dos Negros
Historicamente, o manguezal tem sido o berço da vida no território quilombola Brejão dos Negros, no Baixo São Francisco. É nele que se reproduzem peixes, caranguejos e mariscos; é dele que vem parte fundamental da alimentação, da renda e da identidade cultural da comunidade. No entanto, nas últimas décadas, esse ecossistema vital passou a sofrer pressões cada vez mais intensas, colocando em risco não apenas a biodiversidade, mas também os modos de vida tradicionais dos povos das águas.
É diante desse cenário que surge a ação de reflorestamento do mangue desenvolvida pelo Projeto Povos das Águas, realizado pela Associação dos Pequenos Agricultores do Estado de Sergipe (Apaese), com o apoio do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), do Território Quilombola Brejão dos Negros, e em parceria com a Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental.
As ações de coleta de propágulos do mangue e a formação em produção de mudas aconteceram no Quilombo Santa Cruz, nos dias 8 e 9 de janeiro de 2026, sendo uma iniciativa que uniu saberes tradicionais, mobilização comunitária e fundamentos técnicos da restauração ecológica.

O manguezal e sua importância ecológica e social
O mangue é considerado um dos ecossistemas mais produtivos do planeta. Estudos apontam que áreas de manguezal funcionam como berçários naturais para até 80% das espécies marinhas de interesse comercial em regiões costeiras, segundo dados do Instituto Oceanográfico da USP. Além disso, o mangue atua como barreira natural contra a erosão, protege o território contra eventos extremos, como cheias e avanço do mar, e é um dos maiores sumidouros naturais de carbono, armazenando até cinco vezes mais carbono do que florestas tropicais terrestres, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
No território Quilombola Brejão dos Negros, o manguezal não é apenas um dado ambiental, ele é parte da história viva do quilombo. Gerações de pescadores, marisqueiras e catadores de caranguejo aprenderam, desde cedo, a ler o tempo, a maré e o comportamento do mangue para garantir o sustento das famílias sem romper o equilíbrio da natureza.
“A minha história com o mangue começa de criança. Os pais levavam a gente pra ensinar a pescar, a pegar o caranguejo, a gente tinha muita andada de caranguejo, hoje já não tem tanto. Eu com 8 anos já entrava no mangue, gostava muito de pescar com minha mãe. A gente tinha uma cultura aqui de fazer o plantio de arroz dentro do mangue, um plantio que a gente fazia respeitando a biodiversidade. A água adoçava no inverno e a gente plantava o arroz. Hoje a gente percebe que as pessoas não tem respeito pelo mangue. Eu não consigo enxergar a nossa região sem o mangue, porque o mangue foi o pai e a mãe de muitos de nós. Nós crescemos com ele, quem não tinha nada em casa era a ele que recorria como uma reserva de alimentos. Nós crescemos sendo sustentados pelo mangue”, contou Maria Izaltina, liderança no Quilombo Santa Cruz.
Ao ouvir os relatos dos pescadores, pescadoras, marisqueiras e marisqueiros, é possível perceber que a urgência em reflorestar o mangue também é uma questão de busca por soberania alimentar. Com um ecossistema manguezal saudável e livre de ameaças, as comunidades tradicionais podem manter a sua autonomia e soberania alimentar, retirando da natureza o necessário para sobreviver e preservando o meio ambiente para as futuras gerações.
“Quando falamos de reflorestamento do mangue, também estamos fazendo uma denúncia. Se é preciso reflorestar, é porque houve a degradação do ecossistema. E uma das maiores consequências do desmatamento do manguezal é a escassez de alimentos nas comunidades, tanto para consumo quanto para comércio. Isso interfere diretamente na soberania alimentar dos territórios que possuem uma história de luta por autonomia e liberdade. Então é uma pauta da comunidade que precisamos abraçar e tocar para a frente de forma combativa”, pontuou Elielma Vasconcelos, coordenadora pedagógica do projeto e militante do MPA.

Próximos passos no Projeto Povos das Águas
Além das comunidades que fazem parte do projeto, a Associação de Produtores de Orgânicos de Ponta de Areia (APOP) também contribui diretamente para a ação de reflorestamento com formações e a estrutura de viveiros para a produção das mudas. Para a consultora ambiental do projeto, Ana Carolina Lessa, os próximos passos já foram desenhados coletivamente.
“Firmamos um compromisso com as comunidades de realização de monitoramento da florada do mangue para a realização da coleta de propágulos, também novas formações teóricas e práticas, vamos iniciar paralelamente a produção e manejo de mudas no viveiro da APOP e a avaliação da viabilidade de mudas até atingirem o tamanho ideal com cerca de 90 dias. É essencial destacar que a juventude e a comunidade como um todo estão envolvidas desde a coleta, passando pelos processos de formação, de manejo e avaliação no viveiro e plantio. E esse é o objetivo, que as comunidades saibam como preservar, manejar e reflorestar seus territórios”, afirmou a consultora.
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