14 de maio de 2026
Sherlen da Mata | MPA Brasil

O terceiro dia do Encontro Nacional do MPA Brasil foi marcado por importantes reflexões sobre raça, gênero e diversidade sexual como elementos centrais na construção da luta popular e da organização da classe trabalhadora camponesa. Militantes de diferentes regiões do país destacaram os desafios históricos enfrentados pelos povos do campo e a necessidade de fortalecer estratégias coletivas diante do avanço do capital e do identitarismo sobre os territórios.
Questão étnico-racial e fortalecimento das comunidades quilombolas
Abrindo a mesa de debates, a militante do Piauí, Lidia Maria de Souza Aquino, trouxe uma reflexão sobre a falsa abolição da escravidão no Brasil e a permanência da negação de direitos à população negra.
“Há 138 anos aboliram a escravidão, mas que escravidão foi essa? Fizeram nossa falsa libertação. No dia 14 de maio meus ancestrais subiram os morros (…). Mas o que mais me chama atenção é que até hoje esses direitos são negados. Por isso eu digo: 13 de maio não é dia de negro.”
Durante sua fala, Lídia destacou que o racismo não pode ser compreendido apenas como um problema histórico, mas como uma ferramenta ainda utilizada pelo capital para aprofundar a exploração dos povos e o controle dos territórios.
Segundo ela, o MPA vem construindo reflexões sobre como fortalecer uma linha de trabalho de massa voltada às comunidades camponesas quilombolas, articulando organização popular, formação política e luta de classes.
Entre as estratégias apresentadas estão a criação de núcleos quilombolas do MPA, brigadas de articulação e um plano sistemático de formação política que relacione raça e classe como elementos inseparáveis da luta popular.
Atualmente, o Brasil possui cerca de 1,3 milhão de quilombolas distribuídos em mais de 8 mil localidades, sendo 63% concentrados na região Nordeste.
Ao final da intervenção, Lídia reafirmou o protagonismo das mulheres, juventudes, crianças, quilombolas e população LGBT na construção do poder popular e recitou versos de Nego Bispo:
Fogo!… Queimaram Palmares,
Nasceu Canudos.
Fogo!… Queimaram Canudos,
Nasceu Caldeirões.
Fogo!… Queimaram Caldeirões,
Nasceu Pau de Colher.
Fogo!… Queimaram Pau de Colher…
E nasceram, e nasceram tantas outras comunidades que os vão cansar se continuarem queimando.
Porque mesmo que queimem a escrita,
Não queimarão a oralidade.
Mesmo que queimem os símbolos,
Não queimarão os significados.
Mesmo queimando o nosso povo
Não queimarão a ancestralidade.
Feminismo camponês e enfrentamento à violência contra as mulheres
Na sequência, Jeiéli Reis, coordenadora do coletivo nacional de gênero do MPA aprofundou o debate sobre violência de gênero, feminismo camponês e os desafios enfrentados pelas mulheres do campo.
A dirigente questionou os limites das políticas institucionais no enfrentamento à violência contra as mulheres camponesas.
“No feminismo tradicional, as mulheres camponesas não são alcançadas. A gente liga 180 e depois?”
Jeiéli apresentou dados sobre o crescimento dos casos de feminicídio no Brasil e relacionou o aumento da violência ao aprofundamento das crises sociais e políticas vividas pelo país nos últimos anos.
Ela também denunciou a sobrecarga do trabalho doméstico e a divisão sexual do trabalho imposta às mulheres do campo, reforçada pelo discurso conservador.
Segundo a coordenadora, as mulheres camponesas buscaram construir referências no feminismo marxista e no feminismo indígena comunitário, já que o feminismo branco e burguês não contemplava suas realidades concretas.
“O feminismo camponês é anticapitalista, socialista e construído no cotidiano da vida no campo”, destacou.
Jeiéli explicou ainda que o MPA optou por criar um Coletivo Nacional de Gênero — e não apenas um coletivo de mulheres — porque o debate sobre patriarcado e desigualdade precisa envolver toda a organização.
Para ela, o horizonte do Plano Camponês está na defesa da vida, contrapondo-se à lógica do lucro, do agronegócio, dos agrotóxicos e do capitalismo.
Diversidade sexual e organização popular no campo
Encerrando a mesa, Maria Jesus destacou a urgência de aprofundar o debate sobre diversidade sexual dentro da luta da classe trabalhadora e do campesinato.
“Não dá para seguirmos ignorando os LGBTIs dentro da classe trabalhadora e do campesinato.”
A dirigente afirmou que historicamente o debate sobre diversidade sexual no campo sempre foi tratado como tabu, mas reforçou que o silêncio não pode continuar.
“O sujeito LGBT é expulso do campo. É expulso para a prostituição, para as favelas. Não são colhidos por quem mais os deveria acolher. Mas não dá para construir poder popular negando esses sujeitos”, afirmou.
Segundo Maria Jesus, o debate precisa articular gênero, classe e raça, fortalecendo uma perspectiva coletiva de transformação social e combatendo a fragmentação da luta popular.
Ela também apresentou caminhos para fortalecer esse trabalho dentro do movimento, como a produção e divulgação de materiais de formação, a construção de cartilhas, o mapeamento das realidades vividas pela população LGBT camponesa e a formação de dirigentes e militantes em todos os níveis da organização.
Durante a atividade, houve ainda uma apresentação musical e mística com a música ‘Flutua’ de Liniker, reunindo jovens e adultos LGBTI+ do movimento em uma celebração da diversidade e da resistência popular.
Ao final da mesa, as lideranças reafirmaram que aprofundar o debate sobre raça, gênero e diversidade é uma tarefa estratégica para fortalecer a luta de classes e construir um projeto popular capaz de enfrentar o capitalismo, o racismo, o patriarcado e todas as formas de opressão.
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