6 de novembro de 2025

Nota de Repúdio do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
Belém (PA), 05 de novembro de 2025
À comunidade nacional e internacional, aos povos do campo, das águas e das florestas, aos defensores da agroecologia, da soberania alimentar e da justiça climática.
O Movimento dos Pequenos Agricultores manifesta, com veemência e indignação, o seu mais absoluto repúdio à montagem do espaço denominado Agrizone, coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) na COP 30, em Belém do Pará.
Observamos que essa iniciativa representa, de forma explícita, a captura corporativa dos espaços de debate climático, a mercantilização da crise ambiental e a tentativa de legitimar um agronegócio já responsabilizado por milhares de impactos socioambientais como “solução” para os males que ajudou a produzir.
A Agrizone foi concebida como “espaço para disputas de narrativa” sobre a crise climática, com apoio direto de grandes corporações do agronegócio e entidades de classe, entre elas a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a CropLife International, e outras grandes empresas patrocinadoras que exercerão atividades exclusivas dentro do espaço.
A articulação evidencia uma clara tentativa de transformar a COP 30 em palco de green-washing do agronegócio: usar a conferência para revestir de “sustentabilidade” e “tecnologia de solução” um modelo que permanece baseado no desmatamento, na agroquímica intensiva, na concentração de terras, na expulsão de povos tradicionais e na
devastação dos bens comuns.
Segundo dados do sistema SEEG, os sistemas alimentares no Brasil corresponderam a 73,7% das emissões brutas de gases de efeito estufa em 2021, com o setor da Agropecuária respondendo por 33,7%. Este fato comprova que o agronegócio é parte significativa do problema climático — e não um agente incontestado de solução.
Principais críticas ao funcionamento da Agrizone
a) Conflito de interesses evidente — O patrocínio de empresas que produzem agrotóxicos (como a Bayer AG), de alimentos ultraprocessados (como a Nestlé S.A.), e outras ligadas à concentração produtiva, mostra que o espaço serve para promover interesses privados e não a agenda pública de justiça climática.
b) Predomínio de narrativas dominantes — A Agrizone está localizada a menos de dois quilômetros do pavilhão oficial da COP e instalada pela Embrapa para o setor agropecuário majoritário. Ela se configura como um espaço paralelo, financiado por grandes empresas e entidades de classe, com estandes próprios e salas de negócios exclusivas.
c) Ausência de equidade e pluralidade real — Enquanto corporações possuem estandes e poder de articulação, organizações da agroecologia, povos indígenas, quilombolas, camponeses e comunidades tradicionais permanecem relegadas a segundo plano, sem as mesmas condições de acesso, visibilidade e financiamento.
d) Risco de “soluções” que aprofundam o problema — A apresentação de sistemas como “soja carbono zero”, “pecuária de leite de baixo carbono” ou novas métricas de metano busca promover uma narrativa que agrava a evasão de responsabilidades, desloca o foco da transformação estrutural e naturaliza a lógica da expansão produtiva.
Essa articulação tem consequências diretas para os pequenos produtores, para os povos tradicionais, para a biodiversidade e para o futuro climático do planeta. Ao legitimar o agronegócio como “parte da solução”, oculta-se que sua lógica produtiva está na raiz da crise: desmatamento, expansão de monoculturas, grilagem de terras, expulsão de camponeses, contaminação de solo e água, vulnerabilização dos territórios.
Para o Movimento dos Pequenos Agricultores, isso significa:
• Menor visibilidade para a agroecologia — nosso modelo de produção, que preserva a biodiversidade, prioriza a soberania alimentar e promove justiça social, segue sendo marginalizado.
• Redução do espaço público de decisão — quando corporações financiam, articulam e ocupam os espaços de negociação climática, a democracia agrária e ambiental são ameaçadas.
• A perpetuação do “modelo exportador” e predatório — ao se apresentar como “solução verde”, o agronegócio está apto a escamotear sua função como emissor, destruidor de territórios e reprodutor de vulnerabilidades.
Diante desse cenário, o MPA reafirma as seguintes exigências:
1. Suspensão imediata do patrocínio corporativo que coloca empresas com histórico de impacto socioambiental como protagonistas da agricultura “sustentável”.
2. Garantia de espaços de participação equivalentes para pequenos agricultores, povos indígenas, comunidades tradicionais e organizações da agroecologia dentro da COP e, especificamente, dentro da Agrizone.
3. Transparência total sobre os critérios, editais, parcerias e financiamento do espaço Agrizone, incluindo os contratos da Embrapa com empresas privadas e qualquer vínculo que comprometa a missão pública da instituição.
4. Reconhecimento oficial de que a crise climática exige transformação estrutural da agricultura — e não o reforço do agronegócio —, apoiando políticas públicas de reforma agrária, agroecologia, controle social das cadeias alimentares e pagamento direto aos verdadeiros cuidadores da terra.
5. Respeito à soberania alimentar dos povos; prioridade à produção de alimentos saudáveis e locais, e rejeição da lógica da exportação e da mercantilização irrestrita da natureza.
Reafirmamos que não há futuro justo, democrático e ambientalmente responsável se permitirmos que o agronegócio dite sozinho os rumos da produção de alimentos, da ciência, da tecnologia e da política climática. A COP 30 não pode se tornar palco de marketing corporativo, mas centro de transformação real — onde sejam ouvidos os que vivem da terra, defendem a vida, as sementes e a diversidade.
O Movimento dos Pequenos Agricultores se coloca ao lado das comunidades do campo, das águas e das florestas, e exige que a agroecologia, a soberania alimentar e a justiça climática estejam no centro das decisões — não como discurso, mas como prática, política e compromisso público.
Não aceitamos falsas soluções. Lutamos por mudanças de base, pelo direito à terra, à água, à biodiversidade e à dignidade. Para nós, e para as futuras gerações, exigimos — e iremos resistir.
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
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