A luta pela reforma agrária na Colômbia tensiona o debate público e tem conseguido avançar em meio a uma disputa pelas terras e uma violenta repressão aos movimentos populares. Ocupações de terras improdutivas, agroecologia e atuação parlamentar são as ferramentas usadas para aumentar a pressão pelo cumprimento de leis e por uma transformação para uma política mais justa para o território.
As ocupações acontecem em terrenos improdutivos ou cujos donos cometeram diferentes crimes, como ambientais e trabalhos análogos à escravidão. Os camponeses dividem, então, o território entre lotes improdutivos familiares e uma área coletiva. A produção dos lotes fica com cada família, enquanto uma porcentagem do que sai da área coletiva abastece um fundo de investimentos da própria ocupação, destinado a fortalecer a produção e a vida comunitária.
Esses espaços são assolados por ameaças de latifundiários e empresários que contratam paramilitares para expulsar os movimentos.
Dados da Organização das Nações Unidas (ONU) ilustram o contexto de violência. Somente no primeiro semestre de 2025, a entidade denunciou o assassinato de 129 pessoas ligadas aos direitos sociais e ao movimento camponês colombiano.
Terra prometida
É nesse contexto que, no município de Pailitas (Cesar), à beira da rodovia que liga os distritos de El Burro e La Palestina, famílias camponesas decidiram recuperar uma área de cerca de 1,2 mil hectares que, segundo relatam, estava há anos sem uso produtivo e ainda poluía a fonte hídrica local, prejudicando as comunidades que vivem rio abaixo.
Camponeses ligados ao grupo Comissão pela Vida Digna, Terra e Territórios estudaram a área, chamada de Fazenda Terra Prometida, ocuparam e hoje têm o direito de posse reconhecido pela Justiça.
Para começar a ocupação, as famílias plantaram 1,2 mil mudas de banana e, em paralelo, promovem oficinas para reduzir o uso de fertilizantes e recuperar o solo e a água. Tudo isso em transição para um modelo de produção agroecológica, que respeita o solo e não recorre a fogo. A lógica é de produção integrada entre as famílias.
“Estavam explorando e poluindo a fonte hídrica, o que prejudicava todas as comunidades que ficam abaixo. Tomamos a decisão também pela situação econômica da nossa família, de recuperar esse espaço. Nós não plantávamos e tomamos a decisão de recuperar esse espaço”, afirma o camponês Dani Molina, da Comissão pela Vida Digna, Terra e Territórios.
A reforma agrária é uma luta antiga na Colômbia, marcada pela alta concentração de terras: cerca de 1% da população detém 46% do território nacional cultivável, segundo o Instituto Geográfico Agustín Codazzi. O governo de Gustavo Petro tem representado um ponto de inflexão. Desde sua posse, cerca de 300 mil hectares foram entregues a camponeses e comunidades étnicas — uma conquista impulsionada por décadas de mobilização das próprias organizações agrárias.
Fabian Hernandez, porta-voz da Comissão da Vida Digna da Terra e Territórios, vê a recuperação em Pailitas como um exemplo da importância da reforma agrária. De acordo com ele, esse modelo de recuperação não foi inventado pela Coordenação Nacional Agrária (CNA), mas é uma ação comunitária que vem sendo realizada na Colômbia há séculos.
“A reforma agrária avançou pela ação das organizações camponesas. Recuperar para nós é poder retomar o campo e as terras improdutivas. Esse território é um exemplo do problema de terras e de que a necessidade da reforma agrária é iminente. Porque esse terreno tem espaços desocupados. Um terreno de 1.200 hectares tem, possivelmente, 900 hectares vazios. E esses espaços são para a reforma agrária na Colômbia”, disse.
Produção, água e autonomia
Outro pilar das ocupações que têm foco na reforma agrária é a sustentabilidade não só ecológica, mas também das famílias que integram os movimentos. Na Terra Prometida, a organização combina lotes familiares e uma área coletiva, com percentual da produção destinado ao fundo comum. As oficinas de agroecologia miram a redução de fertilizantes e a proteção da água, eixo que motivou a retomada após a denúncia de poluição da fonte hídrica.
Cada família tem seu próprio terreno e pode plantar o alimento que definir, ficando com a renda da venda. Além disso, há um espaço coletivo voltado para uma produção que gera receita para um fundo comunitário. A ideia é reinvestir na produção e em espaços de convivência.
“Aqui trabalhamos coletivamente. Toda a comunidade. Fazemos o plantio e, à medida que vamos produzindo, vamos gerando receita para as famílias”, diz Dani Molina.
A garantia de uma renda é fundamental para as famílias que não têm terras e trabalham em propriedades privadas ganhando baixos salários. A camponesa Ana Milena Zolano tem 33 anos trabalhando no campo e não conseguiu comprar um terreno para sua família. Por isso, ela se juntou à Comissão pela Vida Digna, Terra e Territórios para participar da ocupação da Fazenda Terra Prometida.
“Nós não conseguimos até agora dinheiro para comprar uma terra aqui porque as terras são caras. Essas terras são de pessoas que sempre tiveram dinheiro. E nós nunca tivemos uma terra e, por isso, entramos nesse processo, para ter um lugar para trabalhar”, disse ao Brasil de Fato.

Luta e autodefesa
Para lidar com as ameaças, os movimentos entendem que é preciso manter organização e uma ideologia consistente. A CNA é o maior movimento de luta por terras na Colômbia e a principal responsável por articular camponeses nas ocupações de terras improdutivas.
Além de uma formação produtiva, a CNA também se preocupa com a instrumentalização dos camponeses a partir de uma linha política alinhada ao socialismo. Isso, para o movimento, demarca uma oposição entre linhas políticas distintas que estão colocadas na disputa pelas terras na Colômbia.
Andis Alvarino é camponês da Terra Prometida e entende as ameaças e os ataques sofridos pelos paramilitares têm um agente organizador importante: o capital. Para ele, a luta também disputa um novo projeto de sociedade: é preciso um socialismo que não reproduza lógicas excludentes.
“Se eles vierem, temos que enfrentá-los. Quando eles vêm, são mandados por alguém. E é pelo capitalismo. O capitalismo se impõe ante todo e inclusive ante o camponês. Então o camponês também tem que levantar a bandeira e colocar-se firme”, afirma

Mesmo com a pressão de grandes empresários, os camponeses reforçam a importância da distribuição de terras, não apenas para a produção de alimentos saudáveis, mas por uma divisão mais justa do território colombiano.
Fabián Hernández lembra o papel histórico da Associação Nacional de Usuários Camponeses e da Línea Sincelejo, alvos do paramilitarismo, que tentou destruir produções comunitárias. “Hoje estamos recuperando essa história e as lutas de lideranças que foram assassinadas”, diz, apontando ainda a criminalização de camponeses que ocupam terras improdutivas e a morte de quatro lideranças da Comissão durante o governo de Iván Duque.
Apesar disso, ele vê mudança de cenário: “Há um avanço importante porque este é um governo favorável para que as recuperações de terras aconteçam sem a violência que víamos nos governos anteriores”.

Avanços inéditos e pressão popular
No plano institucional, o governo Gustavo Petro reativou o Sistema Nacional de Reforma Agrária, reconheceu o campesinato como sujeito de especial proteção (Ato Legislativo 01/2023) e criou a Jurisdição Agrária (Ato Legislativo 03/2023).
A gestão também reconheceu os Territórios Camponeses Agroalimentares (Tecam) – instrumento que prioriza políticas de reforma agrária, agroecologia e soberania alimentar – e consolidou as Zonas de Reserva Camponesa (ZRC), hoje 14 reconhecidas.
Segundo a ministra da Agricultura, Martha Carvajalino, mais de 700 mil hectares foram incorporados ao Fundo Nacional de Terras, com cerca de 300 mil hectares já entregues a famílias camponesas e comunidades étnicas. “Colocar a terra nas mãos do campesinato é reconhecer quem abastece 80% dos alimentos nas cidades”, disse em entrevista ao Brasil de Fato. Ela admite, porém, que as regiões com maior concentração fundiária concentram também a violência, e defende a reforma como política de Estado.

