19 de março de 2026

Mulheres camponesas ocupam Centro Administrativo do Governo de Rondônia, em Porto Velho, por direitos, justiça contra o feminicídio e a violência contra as mulheres
Porto Velho, Rondônia – As escadarias do Centro Político Administrativo (CPA) do Governo de Rondônia, em Porto Velho, na última sexta-feira (13), converteram-se em um plenário de resistência. Mais de 400 camponeses e camponesas, vindos de 16 municípios do estado, ocuparam o coração administrativo do estado para romper o silêncio sobre as violências, sobretudo, as violências contra as mulheres.
No centro da mobilização, que integra a Jornada de Luta das Mulheres da Via Campesina Rondônia, esteve a instalação de um Tribunal Popular que deu nomes e rostos aos responsáveis pelo que as lideranças classificam como um verdadeiro cenário de guerra contra a vida das mulheres.
A mobilização, guiada pelo lema ‘nenhum prato sem comida, nenhuma mulher sem vida’, exigiu do governo estadual respostas concretas a uma pauta histórica. Embora já conhecida pelas autoridades, essa pauta foi novamente protocolada dias antes do ato, reforçando a urgência das reivindicações que buscam justiça climática e ambiental, o fim da privatização de bens comuns como rios e rodovias, a aceleração da Reforma Agrária para estancar a violência no campo e um plano de reestruturação produtiva baseado na agroecologia e no fortalecimento das comunidades camponesas.
Como resultado imediato da pressão popular, a Casa Civil do estado assumiu o compromisso de agendar reuniões específicas para receber as organizações que compõem a Via Campesina em Rondônia. As lideranças afirmaram que as comunidades seguirão mobilizadas, compreendendo que a ocupação e a organização social são exercícios fundamentais para efetivar a democracia e garantir que propostas nascidas diretamente dos territórios sejam transformadas em ações de governo.

Figura 1 – registro fotográfico tribunal popular
O veredito popular foi sustentado por dados que assombram o estado. Em 2025, o Brasil registrou 1.470 feminicídios, uma média trágica de quatro mortes diárias. Nesse mapa do sangue, Rondônia consolidou-se como o segundo estado mais perigoso do país para as mulheres.
Jeiéli Reis, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), alertou para a escalada ininterrupta, com um salto de 252% nos casos de feminicídio desde 2020 e o dobro de assassinatos de mulheres no primeiro semestre de 2025 em relação ao ano anterior. A denúncia aponta ainda a negligência do governo de Rondônia, um dos últimos a aderir ao Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, resultando no abandono de mais de 2 mil crianças e adolescentes órfãos.
Para Isabel Ramalho, da coordenação da Via Campesina no Estado, a violência física é apenas a ponta de um iceberg alimentado por discursos oficiais de ódio e misoginia que autorizam homens a matarem mulheres simplesmente por serem mulheres. No Tribunal Popular instaurado durante a ocupação, os réus foram o estado capitalista, o patriarcado e a instrumentalização do lema “Deus, Pátria e Família” para oprimir a diversidade e os direitos femininos.
Isabel destacou que a violência central do feminicídio está colada à negação de direitos básicos como acesso à terra, a água, a saúde, educação e transporte. As privatizações, como da BR-364 e dos rios amazônicos, como o Rio Madeira, foram denunciadas como um ato de guerra econômica que priva o campesinato de produzir e se alimentar, de escoar a produção para gerar renda e viver com dignidade no campo.
A resistência, porém, não se limitou ao julgamento das opressões. Beatriz Buffon, militante do MST, reforçou que a liderança feminina camponesa é o motor de um projeto de vida que se opõe ao imperialismo e à destruição ambiental. Para as camponesas, o combate ao machismo e à misoginia passa obrigatoriamente pela democratização da terra e pelo fortalecimento da agroecologia. Reivindicar políticas públicas para o campo é, na visão do movimento, garantir que o alimento saudável e livre de agrotóxicos chegue à mesa de toda a população, tanto camponesa quanto urbana.
A ocupação do CPA encerrou-se com a reafirmação de que a América Latina deve ser um território de paz, onde o direito de ir e vir não seja cerceado por pedágios e onde o destino das mulheres não seja o silêncio de uma estatística policial. Ao ocupar o centro do poder, as mulheres do campo, das águas e das florestas deixaram um recado nítido: não há justiça climática ou social enquanto o feminicídio for o marcador social de Rondônia. A luta pela vida e pela dignidade continua sendo, para essas centenas de manifestantes, o único caminho para que os rios e as gentes possam, enfim, fluir vidas sem nenhum tipo de violência.
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