30 de agosto de 2026

Encontro será realizado de 3 a 6 de setembro, em Goiás, e dá continuidade a uma experiência de formação política iniciada em 2013, que articula feminismo, organização camponesa, agroecologia e enfrentamento às desigualdades
Por Paulo Miranda (jornalista) – Luziânia (GO) — Mulheres camponesas de diferentes regiões do Brasil vão se reunir, entre os dias 3 e 6 de setembro, em Luziânia, no Entorno do Distrito Federal, para a 6ª Escola Feminista do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). O encontro dará continuidade a uma trajetória de mais de uma década de formação política das mulheres do movimento e de construção do chamado Feminismo Camponês e Popular.
A Escola Feminista tornou-se um dos espaços de formação, organização e intercâmbio de experiências das mulheres do MPA. Ao longo de suas edições, o processo tem colocado em diálogo questões como participação política, relações de gênero, divisão do trabalho, violência contra as mulheres, produção de alimentos, agroecologia, soberania alimentar, direitos sociais e presença feminina nos espaços de direção das organizações populares.
A sexta edição acontece justamente em Luziânia, cidade que ocupa um lugar simbólico nessa história: foi ali que, em abril de 2013, ocorreu a 1ª Escola Feminista do MPA. Registros históricos do movimento mostram que aquela primeira experiência mobilizou cerca de 70 militantes de aproximadamente 15 estados brasileiros e foi marcada pelo lema “Mulher conscientizada, semente germinada, sociedade transformada”.
Treze anos depois, as camponesas retornam ao município goiano para uma nova etapa de um processo que vem acompanhando o crescimento da participação das mulheres dentro do MPA.
Organização das mulheres começou antes da Escola Feminista
A criação da Escola Feminista foi resultado de uma trajetória anterior de organização das mulheres dentro do Movimento dos Pequenos Agricultores. Documentos formativos do próprio MPA registram que, em 2003, foi realizada a primeira Plenária Nacional de Camponesas do movimento. No mesmo ano ocorreu um encontro nacional de gênero que reforçou a necessidade da realização de atividades específicas com as mulheres.
Em fevereiro de 2008, na região de Samambaia, no Distrito Federal, aconteceu o 1º Encontro Nacional de Mulheres Camponesas do MPA, conhecido como “Encontro das 40”. A atividade reuniu 43 mulheres de 16 estados e teve como objetivo ampliar a participação feminina nos grupos de base e nas instâncias de decisão do movimento, além de aprofundar a discussão sobre gênero.
Naquele mesmo período foi criado o Coletivo Nacional de Gênero do MPA, consolidando uma estrutura própria de articulação das camponesas.
Esse processo contribuiu para que as mulheres passassem não apenas a participar das lutas gerais do movimento, mas também a formular uma agenda política própria, vinculando a condição das mulheres no campo aos debates sobre classe social, terra, produção, violência, direitos e poder.
Primeira Escola, em 2013, marca nova etapa
A 1ª Escola Feminista do MPA, realizada em abril de 2013 em Luziânia, representou um salto nesse processo de organização. O encontro fortaleceu a discussão sobre um feminismo construído a partir da realidade concreta das mulheres camponesas, levando em consideração o trabalho na agricultura, a produção de alimentos, a preservação das sementes, a vida comunitária e as desigualdades existentes dentro e fora do campo.
A experiência também passou a ser citada em estudos acadêmicos sobre Educação do Campo como exemplo de formação política protagonizada pelos movimentos sociais. Pesquisas registram que a Escola reunia militantes de diferentes estados e relacionava a luta por igualdade de gênero ao enfrentamento do modelo do agronegócio e à construção de outro projeto de sociedade.
A primeira edição também esteve associada à produção intelectual das próprias camponesas. Documentos históricos do MPA registram o lançamento do livro “Mulheres Camponesas: trabalho produtivo e engajamentos políticos”, elaborado com participação de mulheres do movimento, pesquisadoras e colaboradoras.
Segunda Escola consolida linhas políticas das mulheres
Três anos depois, em fevereiro de 2016, o MPA realizou a 2ª Escola Feminista Nacional, em Seberi, no Rio Grande do Sul.
Cerca de 70 participantes estiveram no encontro, que teve papel importante na estruturação política do coletivo de mulheres. Durante a Escola foram sistematizadas as Linhas Políticas do Coletivo Nacional de Gênero, posteriormente reafirmadas pela direção nacional do movimento.
A segunda edição também ajudou a construir uma pauta nacional de reivindicações para as mulheres camponesas. Entre os temas estavam o enfrentamento à violência contra as mulheres, Previdência Social, educação, saúde, criminalização da produção camponesa e defesa de políticas públicas para a agricultura familiar. Em 2016, outro marco ocorreu: pela primeira vez, uma equipe nacional de negociação política do MPA composta somente por mulheres camponesas assumiu a interlocução sobre a pauta nacional do movimento em Brasília.
Aquele período também foi marcado pelo aprofundamento do conceito de Feminismo Camponês e Popular, entendido pelas organizações como uma perspectiva que articula combate ao patriarcado, luta de classes, enfrentamento ao racismo e transformação das relações econômicas e sociais.
Feminismo Camponês e Popular ganha força
Entre 2017 e 2021, as mulheres do MPA mantiveram um processo de formação e reorganização nos estados, acompanhando as linhas políticas definidas nacionalmente e intensificando a participação em articulações da Via Campesina. Nesse período, as jornadas nacionais das mulheres tiveram como eixos a defesa da Previdência Social, o combate à violência, a soberania alimentar e a democracia.
O processo também aproximou o MPA das discussões mais amplas realizadas pelas mulheres da Via Campesina. Em 2019, organizações camponesas realizaram a primeira Escola Feminista da Via Campesina Brasil, reforçando uma concepção de feminismo vinculada à defesa da terra, das sementes, da soberania alimentar e da igualdade entre mulheres e homens.
Em 2022, registros acadêmicos mostram que atividades organizadas por mulheres camponesas também foram integradas à Escola Feminista do MPA, evidenciando a continuidade do processo de formação e organização nos territórios. As fontes públicas consultadas registram a continuidade desse percurso nas edições seguintes, embora não apresentem, de maneira facilmente acessível, informações completas e individualizadas sobre datas, locais e programação da terceira e da quarta Escolas do MPA.
Quinta edição reuniu mulheres de 20 estados em Brasília
A 5ª Escola Feminista do MPA, realizada entre 26 e 29 de setembro de 2025, em Brasília, representou uma nova etapa de consolidação nacional da iniciativa. O encontro reuniu cerca de 70 mulheres e pessoas LGBTQIA+ do campo, provenientes de 20 estados brasileiros, para quatro dias de formação política, troca de experiências e recuperação da memória das mulheres camponesas.
A programação combinou estudo, atividades culturais, alimentação coletiva, manifestações artísticas e momentos dedicados à memória das gerações de mulheres que ajudaram a construir o campesinato e as lutas populares.
A quinta edição reforçou o Feminismo Camponês e Popular como instrumento de enfrentamento às desigualdades de gênero e classe. As discussões também destacaram o papel das mulheres nos quintais produtivos, cozinhas comunitárias, produção agroecológica e garantia da soberania e da segurança alimentar.
A estrutura da Escola incluiu alojamento, alimentação coletiva e espaço de cuidado com as crianças, incorporando à própria organização do encontro a ideia de que o cuidado também constitui uma dimensão política.
Mulheres são protagonistas da produção de alimentos
Um dos fundamentos que atravessam a trajetória da Escola Feminista é o reconhecimento da contribuição das mulheres para a agricultura camponesa. Em muitas comunidades, são elas que mantêm quintais produtivos, cultivam plantas medicinais, selecionam e preservam sementes, produzem alimentos para o autoconsumo e participam das redes locais de comercialização.
Estudos sobre agroecologia destacam que os espaços produtivos administrados pelas mulheres não se limitam à geração de alimentos. Também produzem conhecimentos, técnicas de conservação de espécies e formas comunitárias de organização econômica e social.
No caso do MPA, essa experiência passou a ser associada à construção de um feminismo com identidade própria: camponês, popular, socialista e conectado à luta pela soberania alimentar.
Para as mulheres do movimento, não existe transformação da realidade do campo sem enfrentar também as estruturas patriarcais que historicamente invisibilizaram o trabalho feminino e restringiram a participação das camponesas nos espaços de poder.
Sexta Escola retorna às origens
A realização da 6ª Escola Feminista em Luziânia carrega, portanto, um significado histórico. É um retorno ao território onde, em 2013, foi realizada a primeira edição e onde começou a ganhar forma um processo nacional de formação que atravessou diferentes conjunturas políticas brasileiras.
A Escola ocorre em um momento em que questões como mudanças climáticas, violência contra as mulheres, soberania alimentar, permanência das famílias no campo, acesso à terra, políticas públicas para a agricultura camponesa e participação feminina nos espaços de decisão ocupam lugar crescente no debate nacional.
“Mulher conscientizada, semente germinada, sociedade transformada.”
A frase sintetiza a aposta que atravessa a trajetória das Escolas Feministas do MPA: formar mulheres para fortalecer sua presença nas comunidades, nos movimentos sociais e nos espaços de decisão, ao mesmo tempo em que se constrói um projeto de agricultura baseado na produção de alimentos saudáveis, na agroecologia, na soberania popular e na igualdade entre mulheres e homens.
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