No silêncio atravessado pelo verde do interior de Imigrante (RS), o Convento São Boaventura tornou-se, na última quinta-feira (16), mais do que espaço de encontro: foi território de memória, compromisso e continuidade. Ali, organizações populares, movimentos sociais, pastorais e entidades reuniram-se para a avaliação da prestação de contas da Missão Sementes de Solidariedade – uma das mais expressivas ações de apoio aos camponeses atingidos pelas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024.
A atividade, marcada por reencontros e partilhas, teve como centro não apenas os números da campanha, mas o legado de Frei Sérgio Görgen, idealizador da Missão, falecido recentemente e sepultado no cemitério do próprio convento.
Em sua memória, foi realizado um ato simbólico carregado de emoção: duas camisetas utilizadas por Frei Sérgio – transformadas em símbolo de luta e compromisso – foram entregues para a guarda da Cáritas RS e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), reafirmando o compromisso coletivo de manter viva sua presença nas lutas populares. Canções interpretadas por Antônio Gringo e Regina Wirtti e depoimentos de amigos e companheiros de luta completaram o memorial.

Transparência, solidariedade e compromisso coletivo
Representando a Cáritas RS, Jacira Ruiz destacou que o encontro foi, antes de tudo, um momento de reencontro humano e político. “O principal propósito da atividade foi nos reencontrar e abraçar, após dois meses da partida definitiva daquele que nos reuniu na Missão Sementes de Solidariedade, nosso amado Frei Sérgio.”
Ruiz lembrou que a própria realização da reunião já era um desejo compartilhado com o frade ainda em vida: avaliar a caminhada, recolher aprendizados, socializar as ações em curso e refletir sobre a conjuntura climática que segue desafiando os territórios.
Na ocasião, a Cáritas apresentou a prestação de contas da campanha, conduzida com acompanhamento do comitê gestor da Missão. Os dados revelam a dimensão concreta da solidariedade: entre 2023 e 2026, 92% dos recursos arrecadados – um total de R$ 1.622.616,83 – foram aplicados diretamente na aquisição de sementes e mudas, fortalecendo a retomada produtiva de famílias camponesas atingidas.
“A informação e a transparência são princípios que viemos pondo em prática”, afirmou ela, sublinhando que a condução coletiva sempre foi marca da Missão. Embora a campanha de arrecadação tenha sido encerrada, ela enfatizou que a articulação segue viva: “Este coletivo permanece ativo, uns apoiando os outros nas lutas que seguem”.

Esperança que germina no chão da realidade
Para Maurício Queiroz, da Comissão Pastoral da Terra (CPT-RS), o encontro reafirmou o caráter histórico da iniciativa. “Com toda a certeza a Missão Sementes de Solidariedade foi a ação mais importante de solidariedade dos últimos tempos para com os camponeses mais pobres atingidos pelas enchentes.”
Ele recordou as palavras de Frei Sérgio, que sintetizavam a essência da proposta: “É claro que este kit de sementes e mudas não resolve o problema, mas fortalece a esperança. E com a esperança fortalecida o povo se levanta com mais força e vai à luta”.
Mais do que a distribuição de insumos, Queiroz destacou que o diferencial da Missão foi sua presença concreta nos territórios: “O destaque mais importante foi a presença solidária lá no chão da realidade destas famílias”.
Essa presença, construída por uma rede de mais de 20 organizações, segue sendo, segundo ele, o principal legado a ser preservado. “Uma articulação viva, capaz de responder às crises e de sustentar processos de resistência e reconstrução.”

Memória que se transforma em compromisso
Durante a homenagem, Maurício e Jacira receberam, em nome da CPT-RS e da Cáritas, duas camisetas de Frei Sérgio e uma fotografia, entregues pelo instituto recém criado, que recebeu o nome do frade e a tarefa de perpetuar sua obra e seu legado de luta. Os objetos não são apenas lembranças: tornam-se compromisso político e espiritual.
“Assumimos a responsabilidade de manter viva sua memória”, afirmou Queiroz. Frei Sérgio foi lembrado como presença constante na organização da Romaria da Terra, como formador e conselheiro da CPT, como admirador e incentivador da missão Cáritas, “deixa um legado que ultrapassa sua ausência física, sua trajetória permanece inscrita nas sementes lançadas, nas redes construídas e nas lutas que continuam a brotar”.
Na avaliação dos participantes, a reunião em Daltro Filho não foi um encerramento, mas uma travessia. Entre números e memórias, abraços e compromissos, reafirmou-se que a solidariedade não é episódio, mas processo. E como nas palavras do próprio Frei Sérgio, evocadas no encontro, a esperança – quando cultivada coletivamente – não apenas resiste: ela germina, cresce e levanta o povo para seguir lutando.
