22 de abril de 2026

Mãe Terra não é discurso: para camponeses, protegê-la exige enfrentar o agronegócio e a falácia dos governos
No Dia Internacional da Mãe Terra, lideranças do MPA e da Via Campesina denunciam a contradição entre promessas ambientais e a destruição promovida pelo agronegócio, além da criminalização de quem de fato preserva.
A data é celebrada em mais de 190 países. Criado oficialmente em 1970, nos Estados Unidos, o Dia da Terra nasceu como um marco do movimento ambientalista moderno. Mas, muito antes de qualquer assembleia da ONU ou acordos climáticos, os povos originários dos Andes já chamavam o planeta de Pachamama, não um recurso, não um cenário, mas um ser vivo, mãe que nutre e que precisa ser nutrida. Para os quéchuas e aimarás, o Sumak Kawsay (bem viver) não é um slogan sustentável: é a compreensão de que a vida só floresce quando se estabelece reciprocidade com a natureza, e não dominação sobre ela.
Hoje, essa sabedoria ancestral encontra eco na luta cotidiana dos camponeses e camponesas brasileiros, ainda que paguem com sangue e criminalização por essa coerência.
“Falar é fácil. Na prática, é destruição total”
Isabel Ramalho, camponesa e liderança do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e da Via Campesina em Rondônia, não hesita ao apontar o centro da contradição: governos e estados discutem a proteção da biodiversidade, assinam cartas e acordos, mas, na prática, fecham os olhos ao estrago que o agronegócio tem feito.
Nós entendemos que essa necessidade é de fundo, mas sabemos que passa por questões estruturantes. O que vemos é uma contradição gritante: os governos criam combinados, mas, no exercício cotidiano das negociações e das barganhas, a biodiversidade e os biomas vêm sendo drasticamente destruídos.
Para Isabel, o agronegócio não tem exceção: todas as suas ações são, literalmente, destruidoras. E o golpe mais perverso, segundo ela, é a criminalização dos movimentos sociais – exatamente os que seguram a ponta da preservação. Criminalizam quem faz o processo de sustentação, de manutenção e de recuperação da biodiversidade. O cuidado, o zelo – isso faz parte do nosso cotidiano, da nossa vida, da nossa essência. Para nós está claro: ou fazemos, ou deixamos de existir.
A liderança lembra que essa teimosia camponesa tem um preço altíssimo: muito assassinato de lideranças e de camponeses comuns.
“Discurso sem camponês é falácia, é fake news”
Anderson Amaro, camponês, liderança do MPA e integrante da Coordenação Latinoamericana de Organizações do Campo (CLOC-Via Campesina), é ainda mais direto.
Para ele, qualquer debate sobre proteção da Mãe Terra que ignore a contribuição dos movimentos populares, especialmente camponeses. É uma grande falácia. Já nasce como uma grande fake news, uma grande mentira.
Anderson sustenta que a proteção da biodiversidade é intrínseca à atividade camponesa. Os povos das águas, do campo e das florestas são os responsáveis pela proteção da natureza. Historicamente, o campesinato produz uma perspectiva de conviver com a natureza. Ele cita os povos indígenas e quilombolas como exemplos diretos desse processo.
Em contraste, o agronegócio opera sob outra lógica: o lucro acima de tudo. Na perspectiva do lucro, transformam o alimento em mercadoria, o que distancia a construção da soberania alimentar, coisa que os movimentos camponeses perseguem.
Para Anderson, não há saída possível sem aliança com a sociedade urbana. Temos que resgatar o sentimento da sociedade urbana como um todo. Ele defende pautas concretas: reforma agrária, soberania alimentar, alimentos saudáveis e sem agrotóxicos, e política de abastecimento popular para que esses alimentos cheguem mais baratos a quem mais precisa. A Mãe Terra só é protegida com esses sujeitos: o campesinato. Não é possível de outra forma. Essa defesa não deve ser unicamente de quem vive no campo. Tem que ser de toda a sociedade. Essa é a grande tarefa na atualidade.
O que a Pachamama ensina e o Ocidente ainda não aprendeu
Enquanto o calendário internacional celebra a Terra com relatórios e metas de carbono, os camponeses lembram algo mais elementar: a Terra não é uma fornecedora de serviços ecossistêmicos. É corpo. É mãe. É território de vida.
A visão do bem viver andino não separa produção de preservação, assim como a agricultura camponesa, que há séculos mantém sementes crioulas, agrobiodiversidade e solos vivos.
Isabel Ramalho resume essa memória viva:
O que tem preservado, construído, reconstruído e ainda resistindo só existe por conta do trabalho da resistência, da persistência e da teimosia do campesinato. Em um dia como hoje, as lideranças deixam um recado claro: não adianta hastear bandeiras verdes se a política, na prática, entrega biomas à motosserra e ao veneno. E não adianta falar em Mãe Terra sem dar voz, terra e segurança a quem, todos os dias, a defende com o próprio corpo.



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