Das muitas frases ditas sobre Frei Sérgio Antônio Görgen durante a celebração de sua despedida, na Paróquia São Boaventura, em Imigrantes (RS), uma se destacou como síntese de sua vida. Proferida por Frei Olávio Dotto, Ministro Provincial dos Franciscanos do Rio Grande do Sul, ela ecoou fundo e permanece ressoando em nós: “Frei Sérgio morreu de tanto viver.”
A frase traduz, com precisão, a passagem desse homem que se fez frei, amigo, irmão, companheiro de caminhada, militante das causas da vida – da terra, da natureza, das sementes originárias, das agricultoras e agricultores camponeses, dos sem-terra, dos povos indígenas e quilombolas.
Frei Sérgio escolheu viver intensamente para os outros. Nunca, em tempo algum, pensava em si. Sua missão era o amor vivido em comunhão. Seu tempo era sempre o tempo das comunidades, dos movimentos sociais e organizações, especialmente do campo.
Foi antissistêmico até na fé. Por isso, tornou-se um verdadeiro revolucionário – sem armas nas mãos, mas munido de coragem, sabedoria, determinação, da força da palavra, das boas ideias, de uma fé inabalável e do desejo insistente de um Reino de Deus já aqui, um Reino plantado no chão da história: uma Terra sem Mal, um outro mundo possível.

Na missão cotidiana – incansável, acelerada, determinada – Frei Sérgio pareceu viver não apenas setenta anos, mas setenta vezes sete, tamanha era sua urgência em semear.
E semeou.
Semeou amor, mas também feijão, milho, arroz, amendoim, moranga, abóbora – sementes originárias, crioulas, férteis, vivas. Sementes que se multiplicam, ao contrário das híbridas e transgênicas, estéreis.
Ele vivia pela fertilidade da terra. Desejava a abundância partilhada, a mesa farta onde não faltassem o pão, o feijão e o vinho. Sonhava com a terra onde correm leite e mel. Sonhava com vida em plenitude, para todos e todas.
Frei Sérgio fará falta. Não há outro igual a ele neste tempo. Por isso, será preciso nos desdobrarmos – na mística, na militância, na missão pela vida e pela justiça. Será preciso levar adiante as articulações entre camponeses, indígenas, quilombolas, os de baixo da pirâmide social. Seguir com as mobilizações contra a exclusão, primar pela formação nas comunidades e fortalecer a luta antissistêmica.
Mas, como se disse na despedida, Frei Sérgio não morreu: ressuscitou. Ele seguirá vivo, nos instigando, nos provocando, nos desacomodando – como boa semente lançada na terra.
Aqui na terra, perdemos um frei generoso, amigo, companheiro, lutador, forte, estudioso. Um agregador, irmão de todas as horas.
No céu há festejos, porque lá ganharam mais um santo, que se somará aos outros santos e às tantas santas – mulheres que também marcaram seu tempo de vida e de luta: Margarida Alves, Dandara, Carolina Maria de Jesus, Irmã Dorothy, Irmã Regina, Bertha Lutz e tantas, tantas outras que nos inspiram neste caminho terreno.
Frei Sérgio, presente!
*Roberto Liebgott é do Cimi Sul – Equipe Porto Alegre.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
