Outro dia recebi uma tarefa que não cumpri, quem cumpriu foi o nosso amigo Marcos Corbari, de escrever um texto junto com o frei. As agitações do cotidiano recente marcada por mudança de cidade e contexto de estudos fizeram com que eu precisasse focar e dedicar força em outras tarefas. Entretanto, a recente despedida abrupta deste grande amigo e professor de vida e de caminhada me fez sentar e expressar em palavras o que sente o coração.
Desde criança, aprendi a ler uma série de quadrinhos da biblioteca pública de minha cidade natal, escrito por René Goscinny e ilustrado por Albert Uderzo, chamada Asterix, o gaulês, e o contexto é a Europa do ano 70 d.C. em que toda a Gália está ocupada pelo exército romano. Cada episódio começa com a afirmação: “toda não, existe uma aldeia de irredutíveis gauleses que resistem à invasão do império”. Assim, na vida muitas vezes, pareceu o frei Sérgio, como um lendário habitante desta aldeia de irredutíveis camponeses, que ele escolheu, em fraternidade, ser nos assentamentos da fronteira entre o Brasil e o Uruguai. Lá era o lugar em que ele se abastecia desse segredo, parecido com a poção que o venerável druida fazia para os gauleses das histórias em quadrinhos, que os tornava invencíveis, literalmente irredutíveis.
Sem esperarmos, ele também deixou seu testamento, última carta escrita quatro dias antes de seu repentino falecimento. Diferentemente do que fazia em seus pronunciamentos nas redes, dessa vez Frei Sérgio expressou por escrito, na ocasião de seu aniversário de 70 anos, que seguia “disposto e esperançoso na força do amor e da vida”, e ainda, que seus tropeços não fossem “mais salientes que a Graça de Deus” operante e atuante na sua vida e na sua vocação de frade menor. Esse era o seu elixir, esse era o segredo do seu sorriso grande e do seu abraço amigo, a Graça de Deus, em sua vida, era a certeza de que o bem viver é o que permanece e deve permanecer entre nós.
Quem o conheceu como amigo pode perceber nele um homem de interioridade, leitura, proximidade com Deus e meditação – a oração mental – que significa rezar a vida e a intenção de fazer a vontade de Deus na existência pessoal e comunitária. Muitas vezes Frei Sérgio deixou expresso que sempre lutou pelo Evangelho, como grande causa e condição de sua missão de irmão menor, entre os menores. Ele, que sempre foi camponês, significou a existência e a resistência camponesa, afirmando em coletivo que a vida é formada por muitas jornadas, nas quais nossa vida tem sentido quando trilhada em coletivo.
Esse seu segredo ele compartilhava com quem estava por perto, em primeira pessoa sempre me aconselhou: estude e escreva, porque essa é também a nossa luta. Por isso hoje, quando tu, frei Sérgio, cevas um mate junto aos que aqui outrora lutaram ao teu lado e agora abraçam convivem no Paraíso: com frei Plínio, irmão Checchin, São Francisco, Santa Clara, Tiarajú e o próprio Papa Francisco. Certamente desde a vida que não tem fim, segues e seguirás nos inspirando, permanecerás presente nos nossos sonhos, especialmente os que sonhamos despertos, seguirás nos mostrando teu segredo, tua força, tua virtude, tua “poção mágica” de efeito infinito, que não te fazia cansar, nem perder o bom humor, e nem se esquecer do sorriso.
Frei Sérgio, que cada um de nós aprenda teu segredo, entenda tua teimosia, descubra o caminho da interioridade que escolheste trilhar em tua vida interior e em tua vida prática feita luta coletiva. Tu nos ensinastes a beleza de nossa pequenez quando significamos a vida camponesa, de valor incomensurável, que te fez um líder dos pequenos gigantes, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), no bojo da Via Campesina, como um agente da Pastoral da Terra que sempre compuseste. Somos e seremos a tua aldeia de irredutíveis camponeses, somos e seremos gratos a ti por tudo que fizestes por nós nessa dimensão da vida, e que agora farás por nós aí da vida eterna.
A gente vai se reencontrar!
Frei Sérgio Görgen, Presente na Caminhada.
*Andrei Thomaz Oss-Emer, agente da Comissão Pastoral da Terra do Rio Grande do Sul, doutorando em Filosofia Moral e Política pela Universidade Federal de Pelotas
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
