12 de maio de 2026
Sherlen da Mata | MPA Brasil

A construção da soberania alimentar como resposta à fome, à crise climática e ao avanço destrutivo do agronegócio esteve no centro dos debates da primeira mesa da plenária do segundo dia de encontro do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Reunindo militantes, pesquisadores, educadores populares e representantes do governo federal, a atividade reforçou a necessidade de fortalecer a agroecologia, os territórios camponeses e a organização popular como caminhos para garantir vida digna ao povo.
A mesa teve início com a recitação de um poema que sintetizou o espírito do debate:
“A terra pede socorro
E é preciso ouvir o sinal
Pois a fome se aproveita desse caos
Mas o povo camponês é a cura desse mal.”
Compuseram a mesa a educadora popular e diretora executiva da Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, ONG Fase, Letícia Turra; o sociólogo, mestre em agroecologia e coordenadora da Articulação Nacional do Semiárido, ASA, Antônio Barbosa; e o coordenador nacional do MPA, historiador e mestre em Educação do Campo, Leomárcio Araújo. A mesa também contou com a presença da ministra das Mulheres, Márcia Helena Carvalho Lopes.
Na abertura dos debates, foi reafirmada a necessidade de enfrentar o modelo destrutivo do agronegócio e afirmar a agroecologia como projeto político estratégico. “Não vai haver soberania alimentar, nem soberania nacional, se a gente permitir que esse modelo continue sendo praticado”, destacou um dos participantes da mesa.
Em sua intervenção, Letícia Turra ressaltou que a articulação entre soberania alimentar e questão ambiental é um acerto estratégico dos movimentos populares. Segundo ela, não é possível compreender a crise ambiental apenas a partir de elementos físicos ou biológicos, pois ela está profundamente ligada ao atual modelo de desenvolvimento social.
“A destruição ambiental e as desigualdades socioambientais estão intrinsecamente ligadas ao modelo de produção do agronegócio e às cadeias globais de commodities”, afirmou.
A educadora destacou ainda, que os principais impactos dos desastres ambientais recaem sobre os setores historicamente marginalizados da sociedade: mulheres, população preta, moradores das periferias, comunidades ribeirinhas, dentre outros. “Não temos como dissociar desigualdades sociais das desigualdades ambientais”, reforçou.
Durante a fala, Letícia apontou o que, segundo ela, são os pilares estruturantes do agronegócio: concentração fundiária, monocultivos, uso intensivo de agrotóxicos, mecanização excessiva e exploração predatória da natureza. Também lembrou que aproximadamente 75% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil estão associadas à expansão desse modelo.
Como contraponto, apresentou o tripé estratégico construído pelos povos do campo: soberania alimentar, autonomia das comunidades e conservação ambiental. “Isso que estamos construindo, a preservação das sementes, da água, do solo e dos territórios é absolutamente revolucionária”, finalizou!
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também participou da atividade e destacou o papel das mulheres camponesas na sustentação da vida e dos territórios. Em sua fala, relembrou os impactos dos anos recentes de desmonte das políticas públicas e de ruptura democrática no país.
“Sabemos as razões das desigualdades e da violência. Para olhar o futuro com esperança, é preciso mudar essa rota”, afirmou.
A ministra chamou atenção para a violência enfrentada pelas mulheres do campo e para a invisibilização histórica do trabalho feminino de cuidado. A atividade também contou com momentos culturais e musicais que ecoaram palavras de ordem do movimento feminista popular, como o coro entoado pelos presentes: “Sem feminismo, não há agroecologia”.

Antônio Barbosa, dirigente da ASA, deu mais um passo na direção de aprofundar o debate sobre soberania alimentar, a partir da centralidade da vida. Para ele, é preciso compreender que toda a sociedade depende do trabalho de cuidado e da natureza para existir.
“A vida deve estar no centro desse debate”, afirmou.
O sociólogo destacou que não existe escassez de alimentos no mundo, mas sim um problema estrutural de distribuição e acesso. Nesse sentido, defendeu a reforma agrária como pauta urgente e atual.
“Precisamos afirmar sempre: reforma agrária não é passado. É necessidade do presente”, declarou.
Barbosa também ressaltou que os territórios com maior insegurança alimentar são os mesmos que enfrentam insegurança hídrica e vulnerabilidade climática. Para enfrentar essa realidade, defendeu uma transição “justa e popular”, construída pelos povos e fundamentada na agroecologia.
“A transformação não virá dos acordos nacionais e internacionais. A tarefa é dos povos, dos territórios, dos camponeses e camponesas”, disse.
Encerrando a mesa, Leomárcio Araújo reafirmou a soberania alimentar como bandeira estratégica do MPA e destacou os desafios de construí-la em um país marcado pela concentração de terra, riqueza e poder.
“O alimento precisa ser compreendido para além da mercadoria. É um direito sagrado e patrimônio dos povos”, enfatizou.
Leomárcio denunciou o caráter destrutivo do agronegócio e sua incompatibilidade com os ciclos da natureza e da vida. Também reforçou que a luta por soberania alimentar está diretamente ligada à saúde humana e ambiental.
Para ele, fortalecer a autonomia das comunidades é uma tarefa central para impedir que o alimento fique sob controle das grandes multinacionais.
“Precisamos gerar autonomia nos territórios onde vivemos, para que o alimento não fique refém das empresas que controlam a produção”, concluiu.
A mesa foi encerrada sob forte participação do público, reafirmando a soberania alimentar, a agroecologia e a organização popular como caminhos concretos para enfrentar a fome, as desigualdades e a crise climática.
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