Depois de um longo dia na lida da roça, de enfrentar o sol, a terra e as articulações políticas para garantir a participação em um dos maiores encontros de sua história, camponeses e camponesas de todos os recantos do Brasil se reuniram virtualmente na noite de quarta-feira (29), para afinar os preparativos para o 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), que vai acontecer em Brasília (DF), de 11 a 14 de maio.
Eram mais de 200 telas acesas, cada uma trazendo um pedaço do Brasil real: da Amazônia ao Pampa, do sertão do Semiárido às águas do Cerrado.
“Decretamos um novo recomeço”
Anderson Amaro, liderança do movimento, fez uma breve análise recordando as origens e o momento histórico que a organização atravessa. “O MPA nasceu em um momento em que o neoliberalismo avançava e decretava o fim do campesinato. Mas nós decretamos um novo recomeço, uma nova forma de organização.”
Ele listou as conquistas que vieram com essa aposta: “Mais dignidade para o povo camponês, direito à moradia, acesso à terra, ao crédito. Levantamos a bandeira da soberania alimentar, uma bandeira histórica do movimento, forjada na solidariedade internacional”.
Também alertou para a gravidade do momento presente. “Estamos vivendo uma crise humanitária. O imperialismo tenta dominar nosso modo de vida. É momento de afirmarmos neste grande encontro as nossas bandeiras de luta e entendermos melhor os desafios atuais.”
Para Amaro, o 4º Encontro Nacional não é apenas mais uma reunião, é a afirmação de um novo ciclo: “Como vamos ampliar nossa contribuição na luta popular? Vivemos altos e baixos na história do campesinato, momentos de ascenso e descenso. Aprendemos a ser resilientes e, sobretudo, a exercer nossa unidade. No momento de crise, se revela a necessidade de uma unidade na prática, não só interna, mas com os demais sujeitos que têm bandeiras em comum”.
Festival Cultural e Feira Camponesa: a alma do encontro
Um dos momentos mais aplaudidos da plenária, ainda que virtualmente, foi o anúncio que promete fazer do 4º Encontro Nacional um grande arrastão de cultura, sabor e alegria: o Festival Cultural e a Feira Camponesa serão realizados em Brasília, revelando o que há de mais bonito no campesinato brasileiro.
A diversidade começou a ser anunciada ainda no bate-papo da transmissão. Uma militante da região amazônica escreveu, em um misto de entusiasmo e convite: “Vai ter castanha, chocolate artesanal, óleo de andiroba…” Em poucas palavras, ela mostrou a imensidão de sabores e saberes que só os povos do campo, das águas e das florestas podem oferecer.
Do outro lado do país, outra voz se manifestou da ciranda compartilhou a ansiedade dos pequenos: “As crianças animadas e cheias de alegria para se encontrarem”. E do sertão do Araripe, em Pernambuco, veio mais uma promessa de festa: “Vai ter cachaça raizada, doce de umbu, sementes e mais gostosuras”.

Poesia, música e a força das regiões
Francisca Souza, do MPA no Piauí, durante o informe da região Nordeste — uma das etapas em que todas as regiões do país socializaram seus processos de construção para o encontro —, emocionou os participantes ao recitar a poesia “Camponês em Produção”, de Céu Santana. Os versos ecoaram como um manifesto:
“Somos Camponeses, filhas e filhos da Mãe Terra, / Somos semeadores da vida em natureza plena, / Somos Guardiãs e guardiões das sementes do amanhã / E no hoje somos fortes combatentes, / Pois ela não cabe em nossas mesas, / Nem tão pouco em nosso planeta.”
Ela completou, em uma síntese perfeita da trajetória do movimento:
“A luta tem cheiro de terra molhada, / Que oxigena nosso sangue, / Embriaga nossa Alma, / Nas conquistas das organizações. / No Movimento dos Pequenos Agricultores, / Tudo vai se concretizando, / E o Plano Camponês soa como ferramenta, / Que prepara a Mãe Terra, pra Semente receber.”
Do Paraná, Filomena Zamponi iniciou seu informe ao som de “Pequeno Gigante”, do Antônio Gringo, atração cultural confirmada para o Festival, uma homenagem musical à força desproporcional que carregam aqueles e aquelas que, do pequeno pedaço de chão, alimentam o país.
“Marchar até conquistar o mundo que estamos construindo”
A plenária foi se encaminhando para o fim, mas não sem deixar uma última chama acesa. Denilva Araújo resumiu o espírito do que está por vir: “Temos de marchar até que a gente conquiste o mundo que estamos construindo, com mesa farta e dignidade para o povo.”
Foi com essa certeza que as mais de 200 pessoas se despediram virtualmente, prometendo se encontrar presencialmente em Brasília. O 4º Encontro Nacional do MPA está chegando e promete ser, como disse uma camponesa no chat, “o reencontro da terra com a esperança”.
Serviço
O 4º Encontro Nacional do Movimento dos Pequenos Agricultores será realizado em Brasília (DF), de 11 a 14 de maio. A programação está em fase de finalização e será divulgada nos próximos dias, incluindo o Festival Cultural e a Feira Camponesa, com exposição e comercialização de produtos da sociobiodiversidade, apresentações artísticas e momentos de formação política.
Mais informações nas redes e canais oficiais do MPA.

