19 de novembro de 2025

Construindo um futuro com direitos e terra: O caminho para amenizar o impacto ambiental com a agroecologia
Fonte: Via Campesina (18/11/2025)
A atividade “Construindo o Futuro: Soberania Alimentar e a UNDROP” (Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses e de Outros Trabalhadores em Áreas Rurais), realizada no âmbito da Cúpula dos Povos em 13 de novembro, reuniu camponeses, ativistas, funcionários do governo e juristas para discutir como a Declaração pode ser uma ferramenta fundamental para enfrentar as crises globais de clima e alimentação.
Os participantes enfatizaram a necessidade de um forte internacionalismo e agroecologia para alcançar transformações estruturais.
Foi também uma oportunidade para compartilhar o novo documentário da La Vía Campesina, Amanecer Campesino, que serviu de base para reflexão e análise sobre o papel do campesinato nas soluções para as crises globais.
A Origem da UNDROP e a Soberania Alimentar como Alternativa
A história da UNDROP está intrinsecamente ligada às lutas dos camponeses que enfrentam constantes conflitos agrários, criminalização e a apropriação de terras e oceanos.
A Via Campesina e suas organizações aliadas promoveram a soberania alimentar como uma alternativa à “segurança alimentar” promovida pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura).
“Na perspectiva da FAO, a segurança alimentar prioriza ‘ter comida na mesa’ sem considerar ‘de onde vem o alimento, como é processado e quem o produz’. Essa visão está ligada ao controle corporativo sobre a produção e o mercado, e à dependência de insumos agrícolas, como sementes, fertilizantes e pesticidas, fornecidos por empresas.”
Zainal Arifin Fuat, SPI – Indonésia
O movimento levou o conceito de soberania alimentar à Cúpula Mundial da Alimentação em Roma, em 1996. Embora a FAO, influenciada por corporações, não reconheça explicitamente o conceito de soberania alimentar, a crise alimentar de 2008 abriu uma oportunidade para promover a proposta de resolução da UNDROP no Conselho de Direitos Humanos da ONU. Finalmente, a Assembleia Geral da ONU adotou a resolução da UNDROP em 17 de dezembro de 2018, composta por 28 artigos. A UNDROP tem um amplo escopo, incluindo não apenas pequenos agricultores, mas também pescadores, povos indígenas, mulheres e pastores, abrangendo direitos que vão da terra ao acesso ao mercado. Em outubro de 2023, foi estabelecido um mecanismo especial — um grupo de cinco relatores especiais — para promover e relatar sobre a UNDROP.
A luta legislativa e a resistência na Colômbia
Irene Vélez Torres, Ministra do Meio Ambiente da Colômbia, compartilhou a experiência de seu país na adoção dos direitos dos camponeses.
“Em relação aos direitos dos camponeses discutidos nas Nações Unidas, o governo colombiano historicamente se absteve. Mas com a chegada do presidente Gustavo Petro, pela primeira vez votamos a favor dos direitos dos camponeses.”
Irene Vélez Torres, Ministra do Meio Ambiente da Colômbia
O reconhecimento da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (UNDROP) se traduziu em âmbito nacional por meio de um ato legislativo de 2023 que, pela primeira vez na Colômbia, reconheceu os pequenos agricultores como sujeitos de direitos e merecedores de proteção especial. O objetivo é assegurar o reconhecimento de suas terras, seu direito à soberania alimentar e à governança territorial reconhecida pelo Estado.
Ela explicou que o governo enfrenta forte resistência das elites e dos lobbies do petróleo. A ministra observou que a criação de uma jurisdição agrária, a proibição do fraturamento hidráulico e a reforma do código de mineração — todas iniciativas destinadas a garantir direitos e proteger territórios — estão sendo bloqueadas no Congresso. Segundo ela, esses setores temem avanços legislativos que fortaleceriam os direitos da população e limitariam o poder corporativo.
Agroecologia, sementes e a necessidade de reivindicar direitos
Delmah Ndhlovu, da organização ZIMSOFF, membro da LVC no Zimbábue, abordou como usar o UNDROP para impulsionar a transformação dos sistemas alimentares e fortalecer os meios de subsistência locais. Ela enfatizou que a agroecologia é um chamado ao retorno aos sistemas alimentares indígenas e ao consumo do que é cultivado. O Artigo 17 do UNDROP estabelece que os Estados devem tomar medidas para conservar e usar de forma sustentável a terra e os recursos naturais por meio da agroecologia. A soberania alimentar implica o direito dos camponeses de definirem seus próprios sistemas alimentares (Artigo 15).
Delmah criticou o sistema imposto que obriga os agricultores a comprar sementes todos os anos e a usar fertilizantes químicos, observando que estes últimos foram “feitos para a guerra”, não para a paz.
Um ponto fundamental é que os direitos contidos na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses (UNDROP) não são automáticos, mas devem ser reivindicados e exigidos ativamente. É crucial que ativistas e especialistas em direito ajudem os camponeses a compreender a linguagem jurídica da Declaração para que possam exigir sua implementação.
“Se não exigirmos os nossos direitos, ninguém os concederá. Eles permanecerão apenas palavras no papel até que os conheçamos, os reivindiquemos e os defendamos. Podem nos perguntar de onde vêm esses direitos, e podemos responder que vêm da ONU, que são nossos.”
Delmah Ndhlovu – Zimsoff, La Via Campesina
Confrontando a apropriação de terras, territórios e mares
Sofia Moller, da ECVC na Dinamarca, abordou as lutas por terra, território e mar, enfatizando que a terra é fundamental para alcançar a soberania alimentar. Ela alertou contra as “falsas soluções” ligadas à compensação de carbono, que exigem grandes extensões de terra para absorver CO2, resultando na apropriação de terras e oceanos em nome da economia azul ou verde.
A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Passageiros (UNDROP) serve como instrumento de proteção contra esses deslocamentos e de resistência ao extrativismo e à mineração, especialmente ao que se conhece como “colonialismo verde” e “capitalismo verde”. Embora esses materiais sejam supostamente necessários para a energia limpa, eles estão se apropriando de terras, poluindo a água e aumentando a violência. A Declaração garante o direito aos recursos naturais e exige que as corporações transnacionais sejam responsabilizadas.
Outro desafio é a expansão da pecuária industrial e das fazendas industriais, que poluem a água e utilizam grandes extensões de terra, bem como a financeirização e a especulação imobiliária por parte de empresas.
O acesso à terra é especialmente crucial para a renovação geracional e para garantir um futuro da agroecologia.
“A terra é verdadeiramente a chave para alcançar a soberania alimentar, e precisamos de leis e políticas que garantam o direito à terra, à pesca, aos oceanos e às florestas.”
Sophia Molller – ECVC Dinamarca
Implementação e Solidariedade
Os participantes concordaram que, embora a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Camponeses (UNDROP) seja um documento poderoso escrito por camponeses, a principal dificuldade reside na sua implementação, uma vez que não se trata de um tratado juridicamente vinculativo, mas sim de uma declaração. Cabe aos Estados decidir como incorporar este quadro.
Carlos Duarte, presidente do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre Camponeses e Outras Pessoas que Trabalham em Áreas Rurais, enviou um vídeo no qual saudou La Vía Campesina e apresentou as recomendações do grupo para vincular o UNDROP às políticas climáticas.
A tarefa dos movimentos sociais é usar a Declaração como ferramenta em suas lutas locais para estabelecer precedentes, seja em casos de acesso à terra, direitos sobre sementes ou poluição.
Da mesma forma, a Via Campesina expressou solidariedade internacional diante dos conflitos e guerras que contribuem para o aumento da fome, mencionando especificamente a Palestina, o Haiti, o Sudão, Myanmar e o Congo, destacando que a guerra transforma alimentos em armas.
O caminho para a soberania alimentar e a plena implementação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos dos Passageiros (UNDROP) exige luta e resistência globais contínuas.
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