11 de janeiro de 2026

Colômbia: no maior páramo do mundo, camponeses organizados barram megaprojetos e semeiam agroecologia
Região de Sumapaz abastece Bogotá e se torna símbolo da resistência popular contra o extrativismo e os agrotóxicos

Sediado em Sumapaz, o Sintrapaz é uma das organizações camponesas mais antigas da Colômbia e foi fundamental para a organização da resistência| Crédito: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato
A mais de 3.500 metros de altitude, o ar se torna rarefeito e frio. A névoa cobre lentamente o solo coberto por frailejones – plantas nativas que capturam a umidade das nuvens e abastecem os rios. Estamos no páramo de Sumapaz, na Colômbia, o maior ecossistema de alta montanha do mundo e uma das maiores reservas de água doce do planeta. Localizado na cordilheira dos Andes, o território alimenta bacias hidrográficas que abastecem a capital Bogotá e milhões de pessoas.
Além da paisagem e da função ecológica, no entanto, está uma das histórias mais longas de resistência camponesa da Colômbia. Após décadas marcadas por violência estatal, perseguições políticas e tentativas de espoliação, as comunidades de Sumapaz hoje apontam caminhos para a reforma agrária, para a defesa da água e para um modelo de produção sem venenos.
Um século de luta pela terra e pela vida
A disputa por Sumapaz antecede em muito os debates ambientais. No início do século 20, a região era dominada por latifúndios com títulos ilegais, que impunham aos camponeses um regime de exploração conhecido como “obrigação”. Trabalhadores eram forçados a prestar serviço gratuito em troca do direito de viver na terra e plantar para sua subsistência.
Durante o processo de organização popular do território, a consigna “a terra deve ser de quem a trabalha” ecoou pelas montanhas e transformou o páramo em referência de sindicalismo agrário e pensamento de esquerda.
A resposta do Estado foi violenta. Em 1955, durante a ditadura de Rojas Pinilla, Sumapaz foi declarada zona de operações militares e alvo de bombardeios. Famílias inteiras atravessaram a pé, à noite e sob frio extremo, os caminhos do páramo para escapar da repressão. Ainda assim, a organização popular se manteve e, dois anos depois, os próprios camponeses fundaram escolas e centros de saúde por meio do Sindicato de Trabalhadores Agrícolas de Sumapaz (Sintrapaz).
Foi também nesse território que se organizou uma parte do que viriam ser as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a maior guerrilha de esquerda que já atuou naquele país.

Símbolos da luta camponesa marcam paredes e construções em Sumapaz, onde memória e resistência seguem vivas (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)
Água contra o lucro: um território blindado
Hoje, o inimigo não é mais o latifúndio tradicional, mas as grandes corporações interessadas nos recursos naturais. Multinacionais do Japão e do Reino Unido tentaram explorar minérios no subsolo da região, enquanto a Enel, por meio da Codensa, cogitou construir hidrelétricas sobre o rio Sumapaz.
A mobilização popular respondeu à altura. Em 2017, o município de Cabrera, um dos situados no território do páramo, realizou uma consulta popular em que 97% dos votantes disseram não aos megaprojetos de mineração e energia. “Para nós, a questão da água é mais importante do que qualquer outro recurso natural”, afirma Filiberto Vaquero López, camponês da região.
Segundo Martha Liliana Melo Gutiérrez, atual presidenta do Sintrapaz, é justamente a vigilância comunitária que faz de Sumapaz o páramo “mais bem conservado do mundo”. Além da pressão social, as comunidades conquistaram avanços jurídicos. A formalização da Zona de Reserva Camponesa (ZRC), uma espécie de assentamento da reforma agrária, do território garante proteção legal contra o extrativismo e assegura o direito das famílias de permanecerem na terra.

Frailejones cercam lago no páramo de Sumapaz, na Colômbia; plantas ajudam a captar e conservar a água. (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)
Reconhecimento inédito no governo Petro
O ano de 2023 foi simbólico para o campesinato colombiano. Pela primeira vez na história do país, camponeses foram reconhecidos como sujeitos de especial proteção constitucional por meio do Ato Legislativo 01 de 2023, aprovado no Congresso durante o primeiro ano de governo de Gustavo Petro.
A ministra da Agricultura, Martha Carvajalino, afirmou em entrevista ao Brasil de Fato que colocar a reforma agrária no centro da política de paz é uma forma de reconhecer “quem abastece 80% dos alimentos consumidos nas cidades”.
Desde então, mais de 700 mil hectares foram incorporados ao Fundo Nacional de Terras para fins de redistribuição. Em Sumapaz, a medida fortaleceu juridicamente a Zona de Reserva Camponesa e consolidou a autonomia produtiva das famílias.

A ministra Martha Carvajalino durante evento comemorativo da conquista de direitos no páramo de Sumapaz (Foto: Rodrigo Chagas/Brasil de Fato)
Da “revolução verde” à agroecologia
Se antes os camponeses eram acusados de degradar o ecossistema, hoje eles enfrentam as consequências de décadas da chamada “revolução verde”, o modelo do agronegócio que impôs o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos em um território frágil.
“Estamos envenenando o ecossistema, nos envenenando e produzindo alimentos envenenados”, critica Filiberto Vaquero. A transição agroecológica, nesse sentido, se tornou uma prioridade para muitos agricultores.
O grupo “Convite”, formado por 11 famílias, trabalha de forma coletiva para eliminar o uso de venenos na produção de batata, cubius, favas e ervilhas. Niyired Ríos, liderança camponesa, ressalta que a agroecologia também é uma questão de saúde pública. “A satisfação de saber que meus filhos comem algo limpo é enorme.”
Delci Sifuentes, camponesa de 66 anos nascida em Sumapaz, defende o retorno às práticas dos avós: “Queremos trabalhar com o arado e a força das mãos, sem o trator que compacta o solo e sem o veneno que mata a vida”.
Apesar das conquistas políticas e ambientais, os desafios econômicos permanecem. Para Martha Liliana, a efetivação dos direitos reconhecidos precisa incluir garantias reais de crédito, infraestrutura e condições para que a juventude permaneça no campo.
“Pensar o Sumapaz como o pulmão do mundo, junto com a Amazônia, é muito significativo”, afirma a presidenta do Sintrapaz. Para os camponeses do maior páramo do planeta, a permanência no território é mais do que um direito: é um compromisso com o futuro hídrico da Colômbia.
Editado por: Nathallia Fonseca
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