4 de novembro de 2025
Brasil: Reforma Agrária, Justiça Climática, Solidariedade e o Direito à Alimentação
Fonte: Via Campesina – 4 de novembro de 2025
A FAO estima que os sistemas alimentares sejam responsáveis por um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, reforçando a necessidade de transformar o modelo agrícola.
No Brasil, 76% das terras aráveis permanecem concentradas nas mãos do agronegócio, enquanto a agricultura familiar — responsável por mais de 70% dos alimentos consumidos internamente — continua enfrentando acesso limitado à terra e aos recursos.
Hoje, cerca de 730 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com fome crônica, e 2,8 bilhões não têm condições de comprar uma dieta nutritiva. No Brasil, a situação é alarmante: 64,2 milhões de pessoas vivenciam algum grau de insegurança alimentar — aproximadamente 30% da população.
Esses dados revelam que o direito à alimentação — um direito constitucional e humano — ainda é violado diariamente. Nesse contexto, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) reafirma seu compromisso com a Reforma Agrária Popular e a produção agroecológica como caminhos concretos para a transformação social. A Reforma Agrária Popular, em sua busca por justiça social e fundiária, propõe uma reorganização do sistema agroalimentar brasileiro — a começar pela garantia da terra para aqueles que a trabalham e cuidam dela.
O trabalho do MST é fundamental para garantir o acesso a alimentos saudáveis e construir a soberania alimentar no Brasil.
Leonardo Ghisolf, chef e presidente do Conselho Municipal de Alimentação e Nutrição de Curitiba (COMSEA).
O movimento defende que o acesso à terra e o fortalecimento da agricultura familiar são pilares fundamentais da soberania alimentar. Em assentamentos e acampamentos, a produção agroecológica tem demonstrado que é possível alimentar as pessoas com alimentos de qualidade, respeitando a natureza e fortalecendo os laços comunitários.
Essa produção cooperativa, em harmonia com a natureza, representa um caminho concreto rumo à soberania alimentar no país.
Gabriel Francisco, nutricionista e membro do Setor de Produção do MST no Paraná.
Ao longo de mais de quatro décadas de luta, o MST construiu uma vasta rede para a produção e distribuição de alimentos orgânicos, provando que o combate à fome depende da organização popular e da valorização do trabalho coletivo. Os alimentos cultivados em terras da Reforma Agrária são um símbolo de resistência e esperança — um testemunho de um modelo de sociedade que coloca a vida, e não o lucro, no centro da tomada de decisões.
Gabriel Francisco acrescenta que a Reforma Agrária Popular também é uma ferramenta essencial para garantir o direito humano à alimentação adequada, observando que esse princípio está consagrado na Constituição e alinhado com as Diretrizes Alimentares do Brasil.
Durante a pandemia, o MST fortaleceu sua prática de solidariedade por meio de iniciativas como Marmitas da Terra, Mãos Solidárias e Cozinhas Solidárias — projetos que uniram trabalhadores rurais e urbanos. A organização da classe trabalhadora em torno das Marmitas da Terra é um belo exemplo de como a produção de alimentos saudáveis pode ser um instrumento poderoso na luta por justiça social.

Força-tarefa coletiva “Marmitas da Terra”, em 2021. Foto: Leonardo Henrique
Ao pensar na produção de alimentos e em fazer com que o MST abastecesse as cozinhas solidárias, o movimento criou um ciclo completo de alimentos de verdade — do plantio à gestão adequada dos resíduos. Esses atos de solidariedade expressam a força da organização popular e mostram que, quando as pessoas se unem, é possível enfrentar a fome com dignidade. As cozinhas coletivas, as campanhas comunitárias e as doações de alimentos que nasceram da Reforma Agrária demonstram na prática que alimentar é um ato político — e que compartilhar alimentos é uma das expressões mais profundas da humanidade.
Comida, espiritualidade e ancestralidade: a comida como sagrada.
Em muitas culturas, comer é mais do que uma necessidade física — é uma expressão de espiritualidade, identidade e ancestralidade. Nas religiões de origem africana, a comida é sagrada: conecta o corpo à natureza, simboliza a partilha e fortalece o vínculo entre o humano e o divino. Preparar e oferecer comida é um ato de cuidado e comunhão, que nos lembra que nutrir-nos é também honrar a Terra e os ciclos da vida.
Esses saberes ancestrais, transmitidos de geração em geração, nos ensinam maneiras mais equilibradas de nos relacionarmos com a comida e o meio ambiente. Ao valorizar o cultivo sem pesticidas, o uso consciente dos recursos naturais e dos bens comuns, e o preparo coletivo dos alimentos, as comunidades reafirmam que comer de forma saudável é um ato tanto cultural quanto político — profundamente ligado à memória e à resistência do povo.
Agradecemos aos nossos ancestrais e às divindades africanas por nos fornecerem recursos sustentáveis na natureza.
Fabiana das Graças Souza, Yalorixá do templo Ilê Asé Alaketu Odé Arolegido e membro do Setor de Arquivo e Memória do MST.

Fabiana (ao centro, usando turbante), no primeiro plantio de feijão-de-corda (Ogum) no Centro Agroecológico Paulo Kageyama, em 2025. Foto: Marta Gomes
Fabiana explica que, numa cozinha Axé, a comida é essencial: primeiro é preparada e depois oferecida, e quando se cozinha para o Sagrado, incluem-se canções como orações, aproximando as pessoas da espiritualidade. Ela observa que esta prática é um legado dos ancestrais africanos, com os alimentos sagrados de Axé a carregarem um significado profundo como oferendas às divindades ancestrais e partilhados entre os membros da comunidade, enfatizando que sem alimento, nenhuma espécie pode existir.
A ancestralidade afro-brasileira também inspira o misticismo e a pedagogia do MST, que compreendem o ato de cozinhar e compartilhar alimentos como práticas tanto políticas quanto espirituais. “Pensar sobre a comida, trazê-la para o debate, para o treinamento e para a nossa mística — isso transforma as pessoas e as aproxima”, reflete Leonardo Ghisolf.
A jornada do “Sem Terrinha” e a relação das crianças com a comida.
Entre as muitas atividades que fortalecem essa conscientização está a Jornada Sem Terrinha, realizada todos os anos com a participação de milhares de crianças de assentamentos e acampamentos. Com o tema “Sem Terrinha em Ação: Defender a Natureza é Defender Nossa Terra”, a jornada deste ano incentivou o aprendizado sobre alimentação saudável, cuidado com o meio ambiente e o papel das crianças na continuidade da luta pela Reforma Agrária Popular.
Desde cedo, eles aprendem que plantar e comer bem são formas de cuidar da vida e do planeta — conectando crianças de áreas rurais e urbanas por meio da agroecologia e do respeito pela terra.
Na Jornada Sem Terrinha, as crianças também são mestras da conexão com a Terra. É importante construir esse entendimento para crianças da cidade, que muitas vezes são privadas dessa relação vital e formativa. Comida de verdade vem da floresta, da natureza. Quanto menos transformamos os alimentos, mais nutritivos eles permanecem. Resgatar nossa ancestralidade — as formas como os povos tradicionais viviam em harmonia com as florestas — nos mostra como podemos produzir com maior biodiversidade. Ao conscientizar e aproximar as crianças dessa realidade, ajudamos as crianças da Sem Terrinha, tanto do campo quanto da cidade, a se encontrarem e trocarem conhecimentos sobre a importância da produção de alimentos saudáveis e da agroecologia.
Carla Bueno, do Setor de Produção do MST.

“Sem Terrinha” reforça a importância da alimentação saudável. Foto: Leandro Molina
Segundo a Teoria da Sustentabilidade do Solo (MST, na sigla em inglês), quanto maior a biodiversidade no solo, maior a biodiversidade presente nos alimentos, e para os povos e comunidades tradicionais, os ancestrais são vistos como os guardiões dessa sabedoria. Essa abordagem alimentar serve como educação política e ambiental, especialmente para as crianças.
Alimentação, Meio Ambiente e a COP 30
Como demonstrou a Jornada Sem Terrinha 2025, falar sobre alimentação é falar sobre o futuro do planeta.
O cultivo de alimentos está diretamente ligado à preservação ambiental, ao uso racional da água e à mitigação das mudanças climáticas.
Enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP 30 em novembro de 2025, torna-se urgente colocar a produção de alimentos e a agroecologia no centro da política climática global — reconhecendo os povos do campo, das águas e das florestas como protagonistas na defesa da terra e da vida. Nesse sentido, durante a Cúpula dos Povos , que ocorrerá paralelamente à COP 30 em Belém, em novembro, o MST reafirmará sua convicção de que a transição ecológica deve envolver a democratização do acesso à terra e o fortalecimento da agroecologia.
A agroecologia é o caminho a seguir. Através dela, garantimos saúde, sustentabilidade e a valorização de alimentos de verdade. Orientada pela Reforma Agrária, a agroecologia se torna um mecanismo estrutural para a garantia de direitos. Que essa prática se expanda cada vez mais — e que haja cada vez menos veneno em nossos pratos! Alimento para os famintos, terra para quem a trabalha!
Leonardo Ghisolf, MST
A busca pelo buen vivir — bem viver para todos, com respeito, cuidado e justiça social — é um dos pilares dessa construção. Viabilidade econômica e preservação ambiental caminham juntas, demonstrando que outro modelo de desenvolvimento rural é possível.
Assim, o dia 16 de outubro – marcado como o Dia Internacional de Ação pela Soberania Alimentar dos Povos – reafirma que a luta contra a fome, a valorização da ancestralidade e a defesa do meio ambiente fazem parte da mesma agenda: garantir o direito a alimentos de verdade — cultivados com respeito, compartilhados em solidariedade e sustentados pela justiça social. Comer bem é um direito — e um compromisso coletivo com o presente e o futuro da humanidade.
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