16 de setembro de 2025

Brasil: “Agroecologia é o caminho para a justiça social e o combate à crise climática”, afirma a carta da 22ª Conferência de Agroecologia.
Fonte: Via Campesina – 16 de setembro de 2025
A 22ª Conferência de Agroecologia foi realizada em Curitiba, Brasil, de 6 a 10 de agosto, com grande participação de movimentos sociais do campo e da cidade, incluindo membros da Via Campesina Brasil.
A 22ª edição da Conferência de Agroecologia foi encerrada com o anúncio de uma carta pública dirigida ao público. O documento, intitulado “Pela Vida, pela Justiça Social e pela Soberania dos Povos”, apresenta as análises e as lutas que são o consenso das mais de 60 organizações, rurais e urbanas, que compõem a Conferência.
A carta reafirmou o papel da agroecologia no contexto do agravamento da crise climática e ambiental global. La Jornada apresentou a agroecologia como “um caminho para superar o modelo do agronegócio, com foco na produção de alimentos saudáveis, na justiça social e no enfrentamento da crise ambiental e climática”.
Carta da 22ª Conferência de Agroecologia
Pela vida, pela justiça social e pela soberania dos povos
Nós, povos do campo, das águas e das florestas, juntamente com a classe trabalhadora da cidade, chegamos a Curitiba para o nosso 22º Dia da Agroecologia. Chegamos em marcha, em luta. Cantamos nossas músicas, trouxemos as cores de nossas bandeiras, para compartilhar nossos alimentos, nossas práticas e nossas reflexões sobre este tema de grande importância para o nosso futuro coletivo: a AGROECOLOGIA.
O Encontro de Agroecologia é resultado da colaboração de mais de 60 organizações sociais, agricultores agroecológicos, assentados e acampados, movimentos populares, povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais, coletivos e instituições de ensino. Desde sua primeira edição, o Encontro tem sido realizado em rodízio em diversas regiões do Paraná. Desde 2018, o Encontro é sediado pela Universidade Federal do Paraná e, este ano, será realizado novamente no campus do Centro Politécnico de Curitiba.
Por meio de conferências, seminários, oficinas, a Feira da Agrobiodiversidade, a Cozinha da Terra, o Túnel do Tempo, o Espaço Popular da Saúde e intervenções artísticas e culturais, o evento buscou apresentar a agroecologia como caminho para a superação do modelo agroindustrial, com foco na produção de alimentos saudáveis, na justiça social e no combate à crise ambiental e climática.
Ao longo de quase 25 anos, o Dia Mundial da Paz tornou-se cada vez mais relevante e necessário. Vivemos uma profunda crise humanitária global, com guerras, ascensão de movimentos fascistas, repetidos ataques à democracia com sucessivas tentativas de golpe, a financeirização da natureza e o genocídio de povos e defensores dos direitos humanos. Nas últimas décadas, testemunhamos os efeitos das mudanças climáticas: secas, incêndios, inundações e perda de biodiversidade.
Em meio ao agravamento da crise climática e ambiental global, reafirmamos que a agroecologia é um projeto político para o futuro, que preserva a natureza, cuida das pessoas e enfrenta as estruturas que destroem a vida. Para nós, agroecologia é trabalho e luta; é sabedoria ancestral aliada à ciência. Ciência que se torna sábia e se nutre da ancestralidade e da experiência cotidiana dos povos. Somos guardiões da biodiversidade, da água e das florestas, e sabemos que não há solução real para a emergência climática sem o reconhecimento e a valorização dos nossos saberes, práticas e modos de vida.
Os povos do campo, das águas e das florestas historicamente protegem e regeneram seus territórios, enfrentando o avanço do capital do agronegócio, o desmatamento, a monocultura, a mineração predatória e o uso intensivo de agrotóxicos.
Repudiamos essas falsas soluções, como o mercado de carbono e outras formas de financeirização da natureza, e defendemos políticas efetivas que garantam a reforma agrária popular, a demarcação de terras indígenas, a titulação de territórios quilombolas e a regularização fundiária dos povos e comunidades tradicionais.
Durante a 22ª Conferência de Agroecologia, reafirmamos nossas LUTAS:
1. A questão climática e a defesa da terra
Diante da emergência climática global causada pelo modo de produção capitalista, a COP 30 deve ser um espaço de participação popular nas tomadas de decisão e de engajamento real, não de falsas promessas. Repudiamos iniciativas legislativas como o chamado “PL da devastação”, que abre caminho para o desmatamento, o avanço do agronegócio predatório e a destruição de biomas essenciais ao equilíbrio climático. É hora de colocar a vida e a natureza acima do lucro econômico. A segurança hídrica é condição para a justiça climática, assim como políticas públicas que valorizem práticas ancestrais e comunitárias, reconhecendo os povos do campo, das águas e da floresta como agentes sociais de transformação, que há muito demonstram com suas práticas e saberes que outros mundos não só são possíveis, como já existem novamente , mesmo diante das ameaças do capital.
2. Avanço tecnológico para a agroecologia
A tecnologia deve servir à vida, não à concentração de poder. Defendemos o desenvolvimento e a disseminação de tecnologias e ferramentas tecnológicas voltadas à massificação da agroecologia, à eliminação do trabalho pesado, à democratização do acesso às sementes nativas, ao fortalecimento da produção de alimentos saudáveis e à garantia da soberania alimentar dos povos. Defendemos a continuidade e o aprimoramento dos programas de compras institucionais e a promoção de cadeias de abastecimento de curto-circuito, aproximando comunidades rurais e urbanas no acesso a alimentos saudáveis.
3. Democracia e justiça econômica
Unimo-nos à luta por um plebiscito popular que proponha o fim da tabela 6 por 1 e da tributação de grandes fortunas, medidas essenciais para reduzir a desigualdade, valorizar o trabalho humano e financiar políticas públicas estruturantes. Condenamos veementemente as contínuas tentativas de golpe. Os golpistas de ontem e de hoje não devem ser anistiados. Nossa luta é inegociável e será sempre em defesa da democracia!
4. Contra o imperialismo e o capitalismo predatório
Reafirmamos nossa denúncia do imperialismo, da lógica predatória do capitalismo e do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos, que asfixia economias e vidas, como o de Cuba. Defendemos a autodeterminação dos povos e o fim de toda forma de dominação.

5. Solidariedade internacional
Expressamos nossa solidariedade incondicional aos povos em luta, como a Palestina, que enfrenta um genocídio em curso, e Cuba, que resiste ao bloqueio há mais de seis décadas. A luta é uma só: por justiça, liberdade e soberania popular. Pelas vidas do povo, pela liberdade e pelo fim da guerra na Palestina !
6. Juventude em defesa da agroecologia
Reafirmamos que a juventude rural e urbana resiste e constrói o presente pela luta. Nós, jovens, não somos uma promessa de futuro, mas uma realidade insurgente: ocupamos assembleias e roças, disputamos narrativas na academia e nas ruas, enquanto plantamos agroflorestas e resgatamos saberes ancestrais. Formamos redes de conhecimento que circulam entre a universidade e o campo, praticando medicina tradicional, produzindo ciência comprometida e transformando cada planta plantada, cada território defendido e cada política pública conquistada, como o Pronaf Jovem e os planos de transição ecológica, em combustível político.
7. Mulheres, sementes crioulas
Que nós, mulheres, sejamos ouvidas, porque nossos corpos são os primeiros a serem afetados em qualquer crise. Que dominemos as narrativas para visibilizar a agência das mulheres e garantir que os alimentos agroecológicos sejam identificados como aqueles produzidos por meio de relações de trabalho justas, com a proteção da natureza, de forma cooperativa e sem qualquer forma de opressão. Lutemos por políticas que respondam às necessidades sociais e à realidade da agricultura familiar e camponesa. Esta é uma condição fundamental para que as políticas funcionem e, assim, valorizem quem, de fato, tem dado respostas significativas à crise climática e ecológica.
8. Terras livres de agrotóxicos e OGMs.
O agronegócio envenena nossos corpos, solos e águas, destrói a natureza e agrava a crise climática. Rejeitamos a liberação de agrotóxicos e organismos geneticamente modificados, incluindo novas culturas como trigo, soja e arroz, que ameaçam a soberania alimentar e a biodiversidade. Esse modelo se sustenta em isenções fiscais e subsídios públicos, enquanto as comunidades rurais lutam para acessar políticas que promovam a agroecologia. Não haverá justiça econômica ou climática sem a eliminação dos agrotóxicos, a proibição dos organismos geneticamente modificados e o fim dos privilégios do capital agroindustrial.
9. Proteção para aqueles que defendem o direito à terra, ao território e ao meio ambiente.
Acesso à terra, reforma agrária popular, regularização fundiária, demarcação e titulação territorial e proteção ambiental são urgentes. Terra não é mercadoria: é direito coletivo que fortalece a comunidade, valoriza as culturas e promove o retorno das comunidades rurais. Denunciamos a escalada da violência no campo: assassinatos, perseguições, criminalização de lideranças e impunidade para violadores de direitos. Exigimos proteção integral para aqueles que defendem o meio ambiente, com segurança, reparação e fortalecimento das comunidades em luta. A publicação do decreto do Plano Nacional de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos é urgente.
Cuidar da nossa casa comum é uma tarefa urgente para toda a humanidade. Diante da crise climática e da destruição causada pelo capital, reafirmamos nossa responsabilidade coletiva de reconstruir as relações entre as pessoas e a natureza, cultivando a solidariedade, a justiça e o respeito aos povos e à diversidade da vida. A agroecologia é o caminho que nos permite nutrir, curar e regenerar a Terra, unindo o conhecimento ancestral e a ciência comprometida com o Bem Viver.
Lutamos por um Brasil soberano e popular, livre de transgênicos, agrotóxicos e de todas as formas de opressão de classe, raça, gênero e sexual. Por territórios saudáveis que respeitem as pessoas, as comunidades, os animais, a biodiversidade e o meio ambiente. Por uma nação sem fome e pobreza, comprometida com a justiça social e ambiental.
Curitiba, 10 de agosto de 2025.
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