Evento realizado pelo MPA reuniu mais de 1.200 pessoas em Ponto Novo e reafirmou as sementes crioulas como patrimônio dos povos a serviço da humanidade
Nos dias 18 e 19 de setembro de 2026, o Assentamento Terra Nossa, em Ponto Novo, no centro-norte da Bahia, tornou-se o coração da resistência camponesa do país. O 4º Festival de Sementes Crioulas da Bahia, realizado pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), consolidou-se como um dos maiores encontros de defesa da agrobiodiversidade já vistos no Brasil . Com o tema “Sementes Crioulas – da resistência camponesa à soberania alimentar” e o lema “Sementes Crioulas, semeando soberania para enfrentar o capital e as mudanças climáticas”, o evento reuniu mais de 1.200 agricultores e agricultoras, guardiões e guardiãs de sementes, pesquisadores, movimentos populares e organizações parceiras de diversas regiões do país.

A quarta edição deu continuidade a uma trajetória iniciada há dez anos, em 2016, quando o primeiro Festival foi realizado em Feira de Santana. Desde então, o encontro transformou-se em espaço de articulação entre camponeses, comunidades tradicionais, universidades e instituições públicas, colocando no centro do debate a questão fundamental: quem controla as sementes?
A Rede de Sementes da Teia dos Povos e o resultado que emocionou
Um dos momentos mais significativos do festival foi a testagem de contaminação transgênica das sementes do milho crioulo da Rede de Sementes da Teia dos Povos. O projeto Laboratório Móvel da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) levou até os agricultores a tecnologia para verificar se suas sementes estavam contaminadas por transgênicos .

Foram testados três tipos de milho produzidos no Assentamento Terra Vista por Mestre Valmir e militantes da rede: milho crioulo vermelho, milho de pipoca azul e milho guarani branco. A metodologia foi explicada durante o festival: pesam-se 180 gramas de milho para cada 200 ml de água; a mistura é triturada no liquidificador; o líquido sobrenadante é separado e deixado descansar para ser pipetado. Em seguida, colocam-se 5 ml em cada um dos quatro microtubos e adicionam-se as fitas com anticorpos que reconhecem a proteína transgênica. Quando aparece apenas uma fitinha, o teste indica que o milho está livre de transgênicos.
E foi exatamente isso que aconteceu: todas as amostras se mostraram livres de qualquer contaminação. O milho de Mestre Valmir, grande guardião e mestre de variedades, deu negativo para transgenia. O resultado é especialmente significativo diante da dificuldade de cultivar milho sem contaminação. A polinização cruzada do milho pode alcançar um raio de mais de 50 km, o que torna a preservação das variedades crioulas um verdadeiro ato de resistência.

A equipe da UFRB reforçou que a contaminação das sementes não é culpa dos agricultores, mas sim do ataque direto do capital e do latifúndio sobre a autonomia e a soberania alimentar dos povos. A universidade reafirmou seu compromisso com os movimentos populares, colocando-se de portas abertas para doar fitas e receber milhos para testagem a cada safra, todos os anos.
Troca de mais de 300 variedades e protagonismo das mulheres e juventudes
A Feira de Sementes Crioulas e da Sociobiodiversidade da Bahia foi o coração do festival. Guardiãs e guardiões de todo o território se encontraram para trocar, expor e comercializar a riqueza da biodiversidade baiana. Durante os dois dias, foram trocadas mais de 300 variedades de sementes, evidenciando a riqueza da agrobiodiversidade presente no território .

O evento foi marcado pelo protagonismo das mulheres e das juventudes, que estiveram à frente dos debates e das atividades. A presença de lideranças de organizações, do poder público e da universidade contribuiu para ampliar a discussão em torno de temas centrais como produção, comercialização e conservação das sementes.
Painéis temáticos: da soberania à saúde, da educação ao enfrentamento jurídico
Ao longo dos dois dias, os painéis temáticos aprofundaram debates essenciais para a construção da autonomia camponesa:

Soberanias – Organizações como MPA, SASOP, ARCAS e FIDA destacaram a pesquisa participativa de melhoramento genético junto às famílias e a assistência técnica para reprodução e armazenamento, defendendo que o conhecimento científico caminhe ao lado dos saberes ancestrais .

Bioinsumos e Transição Agroecológica – Apontou-se a necessidade de autonomia na produção de insumos para evitar a dependência das grandes empresas do agronegócio. Experiências de biofábricas comunitárias e o uso de microrganismos, compostos e extratos naturais reforçaram que a transição agroecológica exige romper com o pacote químico que contamina solos, águas e corpos.

Educação do Campo e Agroecologia – Debateu-se a soberania pedagógica e a importância de nos educarmos para compreender o verdadeiro valor das sementes. Escolas do campo, universidades e movimentos populares foram convocados a construir currículos que valorizem a cultura camponesa, a história local e o manejo tradicional da agrobiodiversidade.

Sementes Crioulas e Saúde – Denunciou-se como os conhecimentos populares foram esvaziados em favor do consumo de cuidados farmacêuticos e ultraprocessados que adoecem os territórios. Defendeu-se a alimentação saudável como direito, resgatando o uso medicinal das plantas e a diversidade das roças como estratégia de prevenção e cuidado integral.
Enfrentamento Jurídico e Garantia de Direitos – Discutiu-se como as comunidades precisam se defender do monopólio jurídico das sementes, que ameaça as variedades nativas e criminaliza práticas ancestrais de guarda e troca.
Infância e Sementes – O painel desenvolveu trabalhos de artes com sementes para as crianças, aproximando os mais novos desse patrimônio. Mestre Valmir falou às crianças sobre a importância das sementes para nós e para muitos povos indígenas, cujas cosmovisões colocam as sementes no centro de sua existência — um gesto que uniu gerações em torno do cuidado com a vida.

Rota Camponesa, noite cultural e o compromisso com a continuidade

A Rota Camponesa proporcionou experiências práticas de campo. Camponesas e camponeses conheceram iniciativas de produção e organização dos territórios do MPA e MST, percorrendo experiências dos corredores agroecológicos e educação do campo — uma troca que evidenciou a diversidade e a força da agricultura camponesa na produção de alimentos e na construção da soberania alimentar.

A noite cultural ficou marcada pela apresentação do grupo de teatro Insens.atos, com a peça “O Contrato”, que retrata a luta dos pequenos agricultores pela posse da terra para não serem roubados pelo latifúndio, emocionando e reafirmando a resistência camponesa.

O 4º Festival encerrou-se com a certeza de que Ponto Novo se firmou como capital nacional das sementes crioulas, após 17 anos de articulação do MPA. A construção do 5º Festival já foi firmada, reafirmando a continuidade dessa luta essencial para a soberania alimentar e para a vida no campo.
Presenças e apoios
O festival contou com a participação de representantes do MPA da Bahia, Sergipe, Pernambuco e Rondônia, além de integrantes do MPA Nacional. Também marcaram presença movimentos sociais e articulações como a Teia dos Povos, que desde 2012 constrói uma aliança entre comunidades indígenas, quilombolas, sem-terra e pequenos agricultores em torno da agroecologia e da Rede de Sementes Crioulas. Estiveram presentes ainda o MST, MDA, FIDA, ARCAS, IICA, SASOP, Povos da Mata, UFRB, UNEB, SEC, Refaísa e representantes do poder municipal.
Apoie a Rede de Sementes da Teia dos Povos
A Rede de Sementes da Teia dos Povos agradece a todas e todos que apoiaram e apoiam essa caminhada, especialmente aqueles que contribuem no Apoia-se da rede. E faz um convite para que mais pessoas contribuam, para que aumente a salvaguarda das sementes crioulas e nativas.



