31 de agosto de 2026

Por Paulo Miranda (jornalista)
Ponto Novo (BA) — Sementes que atravessaram gerações, sobreviveram às secas, foram selecionadas pelas próprias famílias e carregam conhecimentos acumulados durante décadas estarão no centro de um grande encontro da agricultura camponesa baiana. Nos dias 18 e 19 de setembro de 2026, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) realiza o 4º Festival de Sementes Crioulas da Bahia, no Assentamento Terra Nossa, em Ponto Novo, no centro-norte do estado, com o tema “Sementes Crioulas – da resistência camponesa à soberania alimentar” e o lema “Sementes Crioulas, semeando soberania para enfrentar o capital e as mudanças climáticas”.
A quarta edição dá continuidade a uma trajetória iniciada há dez anos e que transformou o Festival em espaço de encontro entre camponeses, guardiões e guardiãs de sementes, movimentos populares, comunidades tradicionais, pesquisadores e organizações ligadas à agroecologia.
Mais do que expor variedades agrícolas, os festivais colocam em discussão quem controla as sementes e, consequentemente, parte fundamental da produção de alimentos. Para o MPA, preservar, multiplicar e compartilhar sementes crioulas é uma estratégia de autonomia das famílias camponesas e de construção da soberania alimentar.
A escolha de Ponto Novo para receber a quarta edição reforça essa relação. Estudos sobre conservação da agrobiodiversidade na Bahia apontam a atuação do MPA no município e em assentamentos de reforma agrária como uma experiência de referência na preservação e multiplicação de sementes crioulas.
Chamadas de crioulas, tradicionais ou locais, essas sementes são variedades conservadas, selecionadas e multiplicadas pelos próprios agricultores ao longo das gerações. São adaptadas às condições ambientais e culturais dos territórios onde são cultivadas e fazem parte do patrimônio genético e alimentar das comunidades.
Milho, feijão, fava, andu e inúmeras outras variedades permanecem vivas porque famílias agricultoras decidiram guardar parte das melhores sementes de uma colheita para plantar novamente no ciclo seguinte. Nesse processo, agricultores e agricultoras não são apenas produtores. Tornam-se guardiões e guardiãs da agrobiodiversidade.
Na Bahia, trabalhos desenvolvidos pelo MPA e organizações parceiras identificaram dezenas de variedades mantidas pelas comunidades. Um projeto de multiplicação implantou 16 campos irrigados e capacitou 110 agricultores, permitindo, entre outros resultados, a multiplicação de cinco variedades crioulas de feijão e três de milho. No Sudoeste baiano, um levantamento chegou a identificar 44 variedades de feijão e 23 de milho em oito comunidades.
É essa diversidade genética, cultural e alimentar que estará simbolicamente representada no quarto Festival.
A trajetória começou em 25 e 26 de novembro de 2016, quando Feira de Santana recebeu o 1º Festival de Sementes Crioulas da Bahia. Realizado no Centro de Ciência e Tecnologia em Energia e Sustentabilidade (Cetens), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), o evento nasceu de uma articulação envolvendo instituições de ensino e pesquisa, organizações sociais e movimentos do campo, entre eles o MPA.
O encontro colocou frente a frente conhecimento científico e saberes construídos durante gerações pelas comunidades rurais. A programação discutiu interculturalidade, agrobiodiversidade, políticas públicas, conservação das sementes e reconhecimento dos guardiões e guardiãs. Também houve troca de experiências entre agricultores, feira camponesa, intercâmbio de sementes e comercialização de produtos da economia solidária.
Um dos objetivos era justamente discutir estratégias para preservar os recursos genéticos locais e reconhecer as sementes como patrimônio biocultural fundamental à soberania alimentar. A programação também mostrou uma característica que acompanharia as edições seguintes: a construção coletiva. Participaram representantes de povos indígenas, quilombolas, comunidades de fundo de pasto, movimentos sociais, universidades, instituições públicas e agricultores familiares.
Dois anos depois, o Festival chegou ao Sudoeste da Bahia. Entre 2 e 4 de fevereiro de 2018, Brumado recebeu o 2º Festival de Sementes Crioulas da Bahia, realizado pelo MPA e pela Cooperativa Mista de Produção e Comercialização do Estado da Bahia, com parceiros locais. O encontro promoveu intercâmbio de informações, exposição de produtos do campo, debates, relatos de experiências e, principalmente, a troca de sementes entre agricultores.
Naquele momento, o MPA apresentou resultados da experiência de produção de sementes crioulas em 16 campos irrigados implantados em comunidades de três territórios baianos — Piemonte da Chapada Diamantina, Piemonte Norte do Itapicuru e Sudoeste/Vitória da Conquista — alcançando diretamente mais de 500 famílias camponesas.
O Festival também ajudou a dar visibilidade a personagens fundamentais dessa história: as pessoas que guardam sementes. Entre elas estavam mulheres detentoras de conhecimentos tradicionais sobre plantas, raízes e alimentação. Um dos registros da segunda edição conta a história de Anildes Pereira dos Santos, conhecida como Nair, da comunidade Baixa do Couro, em Jacobina, que levou ao encontro conhecimentos acumulados durante décadas sobre raízes e plantas medicinais.
Estudo acadêmico sobre os bancos de sementes familiares do centro-norte baiano registra que, somadas, as duas primeiras edições mobilizaram mais de 500 camponeses de 54 municípios da Bahia.
Depois de um intervalo marcado, entre outros fatores, pelos anos da pandemia, o Festival voltou em grande escala em 2023. Entre 12 e 14 de janeiro, Jacobina recebeu o 3º Festival de Sementes Crioulas da Bahia e Feira da Agrobiodiversidade. Com o lema “Cultivando sementes: por soberania alimentar no enfrentamento à fome”, a terceira edição relacionou diretamente a preservação das sementes à produção de alimentos saudáveis e ao combate à insegurança alimentar.
Cerca de 500 pessoas participaram do encontro, segundo dados do MPA. A diversidade estava presente tanto nas sementes quanto entre os participantes: agricultores e agricultoras, jovens, mulheres, indígenas, quilombolas, comunidades de fundo e fecho de pasto, universidades, sindicatos, movimentos populares e instituições públicas.
A programação reuniu plenárias, oficinas, atividades culturais, feira da agrobiodiversidade, intercâmbio de conhecimentos e troca de sementes. Entre as atividades estiveram oficinas de biofertilizantes, seleção e armazenamento de sementes crioulas, vermicompostagem e práticas relacionadas à recuperação da Caatinga.
Uma das histórias que simbolizaram aquela edição foi a da guardiã Adelice Pereira, da comunidade Paraíso, em Jacobina. Ela mantinha catalogadas 210 espécies em seu banco de sementes e levou parte desse patrimônio para compartilhar no Festival.
O terceiro Festival também deixou um documento político. Na carta aprovada pelos participantes, as sementes crioulas foram definidas como instrumentos de ancestralidade, resistência, saúde, vida e cultura. O documento defendeu a criação e ampliação de políticas públicas de agroecologia e sementes crioulas, orçamento público para essas políticas, fortalecimento da educação do campo e retomada de programas nacionais de produção agroecológica.
Os participantes também assumiram compromissos para continuar construindo casas de sementes e campos de multiplicação, fortalecer a campanha “Cada Família Adote uma Semente”, valorizar farmácias vivas e plantas medicinais e incentivar uma alimentação baseada em produtos saudáveis e livres de agrotóxicos e transgênicos. A carta sintetizou uma concepção presente desde as primeiras edições: preservar sementes não significa simplesmente armazená-las. É necessário cultivá-las, multiplicá-las, compartilhá-las e garantir que permaneçam nas mãos das comunidades.
É com esse patrimônio acumulado que o Festival chegará a Ponto Novo em setembro de 2026. Se Feira de Santana aproximou conhecimento científico e saber camponês; Brumado fortaleceu as experiências de produção e multiplicação; e Jacobina relacionou as sementes diretamente ao enfrentamento à fome, a quarta edição chega em um momento no qual a crise climática coloca a diversidade genética da agricultura no centro do debate sobre o futuro da produção de alimentos.
Para as populações do Semiárido, esse debate ganha dimensão ainda maior. Variedades preservadas e selecionadas durante gerações podem possuir características importantes de adaptação às condições locais, enquanto a diversidade dos cultivos reduz a dependência de sistemas agrícolas padronizados.
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