8 de agosto de 2026

Por Paulo Miranda – Brasília (DF) – A soberania alimentar deve ocupar posição estratégica no projeto de desenvolvimento do Brasil e não pode ser reduzida apenas ao combate emergencial à fome. A defesa é do coordenador do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e militante da Via Campesina, Anderson Amaro, entrevistado pela secretária Agrária Nacional do PT, Rose Rodrigues, no oitavo episódio do programa Diálogos do Campo. A conversa abordou agricultura familiar, agroecologia, produção de alimentos, políticas de abastecimento, participação social e os 30 anos de trajetória do MPA.
Para Amaro, garantir que a população tenha acesso à alimentação é fundamental, mas a soberania alimentar pressupõe também que o país tenha capacidade de decidir o que produzir, como produzir e de que maneira os alimentos chegarão à mesa da população.
“Não existe um Brasil soberano que não construa uma soberania alimentar”, afirmou ao final da entrevista.
Nascido na comunidade de Paraíso, no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina, Anderson Amaro relatou que iniciou sua trajetória de militância nas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e posteriormente ingressou no MPA. Segundo ele, a defesa do direito à alimentação e da agricultura camponesa acompanha sua atuação política e social há mais de duas décadas.
Durante a entrevista, o dirigente sustentou que a agroecologia não deve ser compreendida exclusivamente como uma técnica agrícola destinada à produção de alimentos sem agrotóxicos.
Na concepção defendida pelo MPA, ela envolve a relação das comunidades com a terra, o respeito à natureza, as relações familiares e de gênero, a diversidade e a valorização dos conhecimentos acumulados historicamente pelos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
Amaro destacou ainda a incorporação de tecnologias, como bioinsumos e pós de rocha, capazes, segundo ele, de substituir parte dos insumos químicos utilizados no modelo convencional de produção.
Para contestar o argumento de que a agroecologia estaria limitada à produção de pequena escala, Amaro apresentou experiências desenvolvidas pelo MPA em diferentes regiões brasileiras.
No Rio Grande do Sul, citou iniciativas de diversificação produtiva realizadas junto a famílias anteriormente dependentes do cultivo de tabaco. A introdução de horticultura, criação de pequenos animais, produção de ovos e práticas agroecológicas teria possibilitado a diversificação da renda e a redução da dependência econômica das famílias em relação à cadeia do fumo.
“É possível produzirmos de forma agroecológica, inclusive em quantidade, não só em qualidade de alimentação”, afirmou.
Outra experiência destacada foi a produção agroecológica de arroz. Segundo Amaro, comunidades camponesas têm utilizado adubação orgânica, pós de rocha e bioinsumos, registrando, em alguns casos, aumento de produtividade.
O dirigente citou experiências em Sergipe e iniciativas de recuperação de variedades de arroz na Bahia, Maranhão e Piauí, além de trabalhos realizados com comunidades ribeirinhas e povos indígenas no Amazonas.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a diferenciação entre segurança alimentar e soberania alimentar.
Para Anderson Amaro, garantir o acesso aos alimentos constitui uma obrigação essencial do Estado, mas não encerra o problema. A soberania exige capacidade nacional de organizar a produção, manter estoques públicos, fortalecer sistemas de abastecimento e assegurar que a população tenha acesso permanente a alimentos saudáveis.
Nesse sentido, ele defendeu o fortalecimento de instrumentos públicos capazes de atuar estrategicamente no abastecimento nacional, sobretudo diante de crises econômicas, conflitos internacionais e eventos climáticos extremos.
A crise climática, segundo a argumentação apresentada na entrevista, reforça a necessidade de tratar a alimentação como questão de soberania nacional. Um país dependente de cadeias produtivas frágeis ou excessivamente concentradas ficaria mais vulnerável diante de secas, enchentes, conflitos ou outras situações de emergência.
A entrevista também abordou a trajetória do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e o período em que o órgão foi extinto.
Amaro classificou aquele momento como particularmente difícil para os movimentos sociais. Para ele, o conselho desempenhava papel estratégico no acompanhamento das políticas de segurança e soberania alimentar e na interlocução entre sociedade civil e Presidência da República.
O dirigente relacionou o enfraquecimento dos mecanismos de participação social ao agravamento da insegurança alimentar no período subsequente. Durante a pandemia, lembrou, movimentos populares tiveram de reorganizar suas estratégias e ampliar ações diretas de solidariedade.
MPA, Via Campesina e outras organizações passaram a articular doações de alimentos, parcerias com igrejas e associações comunitárias e mutirões contra a fome em diferentes regiões do país. Algumas dessas experiências, segundo Amaro, contribuíram posteriormente para o debate sobre novas políticas públicas de combate à insegurança alimentar.
Ao completar 30 anos de existência, o MPA também enfrenta o desafio da renovação de suas lideranças e da transmissão de experiências entre diferentes gerações.
Durante o programa, Rose Rodrigues e Anderson Amaro recordaram militantes que participaram da construção histórica do movimento, entre eles Frei Sérgio Görgen e a jovem militante Isabel, além de outras lideranças que marcaram a trajetória da organização.
Segundo Amaro, a longevidade de um movimento social depende de três pilares: formação política permanente, organização e luta social.
“Se você não investir na formação contínua, permanente da militância e da organização, está fadado a não prosperar por muito tempo”, avaliou.
Na parte final da entrevista, o coordenador do MPA defendeu a construção de uma política nacional de abastecimento que aproxime produtores e consumidores, fortaleça estoques públicos e amplie os chamados circuitos curtos de comercialização.
Para Amaro, alimentos não podem ser tratados exclusivamente como commodities ou mercadorias submetidas à lógica do mercado. A expansão da agroecologia também não deveria resultar na transformação da alimentação saudável em um produto acessível apenas às parcelas de maior renda da sociedade.
“Não podemos transformar a agroecologia, não podemos transformar o alimento de verdade em nicho de mercado. Tem que ser popularizado”, afirmou.
Para alcançar esse objetivo, ele defendeu a ampliação do número de agricultores envolvidos na produção agroecológica e o fortalecimento de cooperativas, associações e movimentos sociais.
Ao concluir sua participação, Anderson Amaro associou diretamente a permanência da agricultura camponesa à construção de um projeto nacional soberano.
“Enquanto houver um camponês resistindo, lutando, produzindo, haverá também um Brasil resiliente, um Brasil soberano, um Brasil da esperança”, afirmou.
Para o dirigente do MPA, soberania alimentar, agricultura camponesa e desenvolvimento nacional são dimensões inseparáveis de um mesmo projeto: garantir que o Brasil tenha capacidade de produzir alimentos saudáveis, preservar seus territórios e assegurar comida de verdade na mesa de toda a população.
Confira a íntegra da entrevista no youtube do Movimento dos Pequenos Agricultores:
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