17 de julho de 2026

Famílias assentadas de Ponto Novo conheceram experiências de produção orgânica, certificação participativa e agroindustrialização em Irecê.
Entre os dias 13 e 15 de julho de 2026, famílias assentadas ligadas ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), do município de Ponto Novo (BA), participaram de um intercâmbio com a Rede Povos da Mata, por meio do Núcleo Raízes do Sertão, em Irecê. A atividade integra o plano de trabalho de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) executado pela Cooperativa Mista de Produção e Comercialização Camponesa da Bahia (CPC-BA), por meio do Convênio nº 346/2024, firmado entre a SDR e a CAR, com o objetivo de fortalecer a agricultura camponesa no Perímetro Irrigado de Ponto Novo, tendo como eixo a transição para a produção agroecológica e orgânica.
Durante os três dias de intercâmbio, os participantes conheceram experiências consolidadas de produção, comercialização e certificação participativa, vivenciando uma intensa troca de saberes entre camponeses que há anos constroem alternativas ao modelo convencional de produção.
As visitas às unidades produtivas familiares despertaram entusiasmo e renovaram a confiança dos participantes na possibilidade de produzir sem o uso de agrotóxicos. Agricultora do Assentamento Terra Nossa, Marilene Santos de Oliveira conta que a experiência ampliou seus horizontes. “Há anos, desde o início da minha luta contra o veneno, tenho aprendido muito. Mas hoje eu vi coisas que nunca tinha visto. Alimentos bem cuidados, produções bonitas. Estou levando mudas para reproduzir e muito feliz por estar aqui, conhecendo e aprendendo.”
A percepção de que a produção orgânica é possível também marcou o depoimento de Necivaldo da Silva de Oliveira, do mesmo assentamento. Segundo ele, o intercâmbio apresentou mostras de transformar a forma de pensar o trabalho no campo: “Foi transmitida para nós uma outra realidade de produção, que funciona. É desafiador, mas me fez refletir sobre como a transição pode acontecer e que podemos contar com apoios pensados para o produtor.”
O desafio é ainda mais significativo para quem vive em um território historicamente marcado pela agricultura convencional. José Orlando Ribeiro dos Santos destacou que atua em um perímetro irrigado com 25 anos de existência, onde a produção orgânica ainda não faz parte da realidade predominante. “Aqui eu vi muito plantio sem veneno e com qualidade, de banana, alho, mamão. Nós também temos esses produtos lá e podemos fazer de outra maneira, nos organizando e buscando conhecimento.”
Para a agricultora Ageni Rita da Conceição, do Assentamento Nelson Mandela (MST), a experiência reforçou práticas que já fazem parte de sua rotina, mas também revelou novos aprendizados. “Não uso veneno no meu quintal, onde planto alface, beterraba e coentro. Mesmo assim, vi coisas que fazia e que não vou fazer mais. Vamos sair daqui entendendo as dificuldades, mas também mostrando que não é impossível.”
Além das práticas produtivas, o grupo conheceu a organização da Rede Povos da Mata em torno da Certificação Orgânica Participativa, considerada uma parceira estratégica para o fortalecimento das 60 famílias acompanhadas pelo projeto, que hoje desenvolvem a produção em uma área irrigada de 120 hectares. A programação incluiu visitas a quatro unidades produtivas conduzidas pelos agricultores Vanderlei, Emerson, Paula e Daniel, integrantes dos grupos orgânicos do Núcleo Raízes do Sertão. Em cada propriedade, os visitantes conheceram sistemas diversificados de cultivo, estratégias de manejo agroecológico e formas de alimentação baseadas na própria produção familiar.

Agroindústrias para o campesinato avançar
Outro momento marcante do intercâmbio foi a visita às agroindústrias da região, que evidenciou caminhos para agregar valor à produção e ampliar a comercialização da agricultura camponesa. Acompanhados pela engenheira agrônoma e presidenta da CoopIrecê, Zene Vieira, os participantes conheceram o entreposto da cooperativa e sua fábrica.
Também foram visitadas a agroindústria Familiar Orgânicos do Quintal, a Feira de Orgânicos realizada periodicamente na cidade de Irecê e o entreposto da Cooperativa dos Agricultores e Agricultoras Familiares Raízes do Sertão. Paula Silva Ferreira explicou como funciona a certificação, a organização e partes do processo de produção e comercialização da produção orgânica local.
Para o coordenador da equipe técnica da CPC-BA, Pedro Henrique Nunes de Oliveira, as experiências visitadas demonstram que a agroecologia depende de organização coletiva, políticas públicas e perseverança: “Vimos experiências muito concretas, que produzem alimentos de qualidade, mas que exigem muito esforço e muita luta. Esses projetos tiveram apoio de políticas públicas e mostram que é possível construir outro modelo de produção. O que vimos aqui precisa servir de inspiração para fortalecer nossa organização.”
O intercâmbio foi encerrado com uma roda de conversa dedicada à avaliação da atividade e à construção de perspectivas para o futuro. As famílias retornaram para Ponto Novo levando mudas, sementes, novos conhecimentos e a convicção de que a transição agroecológica é um caminho possível quando construída coletivamente, fortalecendo a organização camponesa e ampliando as perspectivas de produção e comercialização no território.


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