14 de julho de 2026

Por Pedro Acosta-Leyva – Professor da Unilab e acampado do MPA
Nos dias 11 e 12 de julho de 2026, tive o privilégio de vivenciar uma imersão profunda na realidade e na resiliência das comunidades do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no município de Ponto Novo, que fica no interior do estado da Bahia.
Acompanhado pelo coordenador estadual, Edvagno Rios, percorri caminhos que revelam a força da organização popular, passando pelo Assentamento Terra Nossa e por dois acampamentos da região Acampamentos União e Lúcia de Almeida). O que vi e senti nesses dias foi o testemunho vivo de que a reforma agrária, quando feita com afeto e propósito, transforma poeira em vida.
A Quebra do Monopólio da Banana: Biodiversidade no Campo
A primeira grande impressão ao pisar nessas terras é visual e sensorial. Historicamente marcada pela monocultura da banana, a região de Ponto Novo ganha novas cores e sabores sob as mãos dos pequenos agricultores do MPA. Ao conversarmos com as famílias e caminharmos pelas plantações, testemunhei uma ruptura corajosa com o modelo tradicional. Ali, a terra respira diversidade. Vi fileiras prósperas de: Goiabeira e Maracujá, carregados de viço; Pitaia e Caju, introduzindo novas possibilidades econômicas; Mandioca e Milho, garantindo a soberania alimentar na mesa de quem planta. Essa transição agroecológica não é apenas uma escolha agrícola; é um ato de resistência que protege o solo e garante a autonomia camponesa.
Linhas do Tempo e Mapas Afetivos: A Formação com Janny
A nossa passagem ganhou uma camada ainda mais rica com o processo de formação e pesquisa facilitado pela pesquisadora colombiana Janny. Sua presença trouxe uma sensibilidade que ajudou a comunidade a olhar para si mesma com orgulho e método.
No dia 11 de julho, nos debruçamos sobre a construção coletiva de uma cronologia da comunidade. Juntos, resgatamos os principais momentos de luta, as vitórias celebradas com suor e os sofrimentos inerentes à conquista da terra. Foi um momento de resgate da memória e de cura coletiva.
No dia 12 de julho, a formação avançou para a elaboração de uma cartografia social e afetiva. Não se tratava apenas de desenhar um mapa geográfico, mas de compreender o território a partir das relações humanas. Mapeamos a conexão profunda dos agricultores com o espaço, com as plantas e com os outros seres vivos — como as abelhas e os passarinhos. Entendemos a terra como um organismo vivo, onde a natureza e o ser humano coexistem.
A Dignidade Conquistada: Estrutura e Realidade
De tudo o que presenciei, a engenharia social e a estrutura das propriedades foram os pontos mais impressionantes. A distribuição dos lotes salta aos olhos pelo planejamento estratégico: cada família conta com 6 hectares de terra de sequeiro e 2 hectares de terra irrigada. Essa combinação garante tanto as culturas de subsistência e pastagens quanto a produção contínua e comercializável de alto valor no perímetro irrigado. Além da terra produtiva, a dignidade se materializa na moradia. A beleza e a qualidade das casas construídas nas comunidades são a prova cabal de que a luta camponesa não é apenas por sobrevivência, mas por bem-viver.

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