19 de junho de 2026
Com a insegurança alimentar em foco, vozes do campo e da cidade reúnem-se em Brasília para debater a contradição brasileira. A partir de relatos de diversos territórios, organizações articulam nova plataforma política para fortalecer a agroecologia
FONTE OUTRAS PALAVRAS – Publicado 18/06/2026 às 19:10

Realizado nos dias 1, 2 e 3 de junho, o I Encontro Nacional para a Transformação dos Sistemas Agroalimentares, promovido pela Missão Josué de Castro em parceria com a Fundação Banco do Brasil (FBB), reuniu mais de 10 organizações nacionais em Brasília, integrando movimentos populares, lideranças sindicais e representantes de instituições públicas. A escolha da capital federal como sede buscou dar visibilidade institucional às discussões realizadas nos três dias. O evento, realizado no auditório da Associação de Docentes da Universidade de Brasília (ADUnb) unificou vozes do campo e da cidade em torno de debates acerca da importância da valorização da agricultura familiar para o combate à fome no país.
O encontro ocorreu para reforçar o debate sobre insegurança alimentar no país, marcada principalmente pelo avanço do agronegócio. O setor, que vem batendo recordes de exportação, consolida o Brasil como uma das maiores potências agrícolas do mundo, mas é ineficiente no combate à fome. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a fome afeta de maneira desigual o país, tendo as regiões Norte e Nordeste como as com mais domicílios em insegurança alimentar.
O modelo do agronegócio, ao priorizar a exportação de commodities em detrimento do cultivo de alimentos para o consumo interno, é visto pelos movimentos populares como um desafio para a garantia da soberania alimentar no país. Nesse cenário, a Missão Josué de Castro buscou articular diversas organizações para propor um projeto de transformação dos sistemas agroalimentares a partir de seus diversos territórios.
O primeiro dia do evento foi marcado pela apresentação dos movimentos populares, que trouxeram relatos de diferentes territórios do país sobre a produção no campo e sobre a necessidade da garantia de direitos básicos como direito à moradia, à água, à energia e à terra para combater a insegurança alimentar. Matheus Florêncio, militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), organização que representa trabalhadores da agricultura familiar – responsável por grande parte dos alimentos que chegam à mesa dos brasileiros – declarou à reportagem a importância da união dos movimentos camponeses e urbanos durante o encontro para o fortalecimento da luta dos movimentos populares.
“A partir do pensamento de cada um deles, por meio dessa organização, a gente consegue ter uma união cada vez mais forte, onde conseguimos romper barreiras que estão instaladas atualmente”.
Matheus Florêncio
Em entrevista ao Outras Palavras, Marcelo Leal, secretário-geral da Missão Josué de Castro destacou o objetivo do encontro de promover em maior nível o debate sobre a transformação dos sistemas agroalimentares: “Cada um (organizações) vai colocar na mesa, lá no território, aquilo que tem de melhor. E o nosso objetivo, a nossa intenção é que isso vai fortalecer as organizações em particular e fazer emergir uma nova classe de organização no território, que é o que nós chamamos da Missão Josué de Castro”.

Após o momento de articulação inicial, houve ainda mesas temáticas com enfoque geopolítico e de conjuntura nacional. O tema “Transição de poder e desafios para os movimentos populares na América Latina” foi ministrado por Mônica Bruckmann, cientista política e professora da UFRJ. Bruckmann destacou ser necessária a melhor distribuição de recursos governamentais para reforçar a soberania alimentar: “É preciso que políticas que drenem recursos do governo cessem. É preciso investimento na agricultura familiar”.
O final do primeiro dia do evento foi marcado pelo compartilhamento de conhecimento entre as organizações e pela realização de painéis de experiências liderados por integrantes dos movimentos. As atividades foram voltadas para o debate sobre governança e gestão, transição agroecológica e energética, educação popular, comunicação e cozinhas e feiras solidárias.
O segundo dia do encontro foi marcado pelo aprofundamento de análises sobre o avanço do agronegócio, dos desafios para a reforma urbana e do papel da comunicação na promoção das pautas dos movimentos sociais. A participação de Caio Pompeia, antropólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), abordou a relação do atual governo Lula e de governos de direita com o agronegócio, analisando o fenômeno do “agrobolsonarismo”. A partir dessa análise, os debates que se seguiram convergiram para a urgência de contrapor esse modelo econômico.
Rud Rafael, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), movimento de luta por moradia urbana, destacou a relevância das ocupações populares e da luta dos movimentos contra modelos capitalistas de cidade que impulsionam a desigualdade para combater a insegurança alimentar nessas regiões. Segundo Rafael, a insegurança alimentar nas periferias têm relação direta com a falta de acesso à moradia: “A fome é a expressão da desigualdade do acesso à terra”, disse.
Como resposta a essa realidade desigual, Bianca Lima, gestora da Xepa, frente de ativismo alimentar do Mídia Ninja, trouxe a importância do investimento em comunicação para contrapor limites impostos pelos algoritmos que favorecem a mídia hegemônica. Para a comunicadora, fortalecer a visibilidade de mídias independentes é indispensável para a promoção de pautas dos movimentos populares.

Em entrevista à reportagem, Ithalo Alves, jornalista e militante do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), movimento que reúne famílias afetadas pela construção de barragens e hidrelétricas, afirmou a necessidade da formação política dos comunicadores sociais e a aproximação deles com a realidade vivenciada pelos movimentos para a existência de uma comunicação popular forte dentro das organizações.
“Nós (comunicadores) precisamos ser formados para que possamos comunicar de forma firme e fiel, assim como o pessoal De Olho nos Ruralistas fazem. Eles escutam os produtores do campo, eles escutam quem realmente tem a vivência”.
Ithalo Alves
O terceiro e último dia do encontro nacional contou com a fala dos agentes territoriais, sintetizando seus aprendizados nos painéis de experiência promovidos pelo encontro. Foram realizadas também mesas para o debate do futuro da Missão Josué de Castro na promoção da soberania alimentar, além de discussões sobre agroecologia e métodos de governança. As agendas finais unificaram as estratégias que os movimentos populares e as instituições públicas têm para realizar de forma conjunta nos territórios com objetivo de garantir o direito a alimentação adequada no país.
O encerramento foi marcado pela leitura da carta manifesto, documento político que consolidou os princípios de luta e os objetivos traçados pela missão. Além do documento, uma novidade tecnológica foi apresentada ao público. Marina Cruz, gerente de projetos da HackLab – empresa brasileira de tecnologia – revelou o novo site da Missão Josué de Castro. A plataforma política, ainda em fase inicial e de software livre, permitirá a criação de um ambiente vivo e o reconhecimento das forças coletivas. Nela, os movimentos poderão compartilhar suas vivências nos territórios de forma autônoma.

Marcelo Leal reafirma em depoimento ao Outras Palavras a tarefa da Missão Josué de Castro em conseguir sensibilizar a sociedade brasileira à respeito da superação da fome. Segundo Leal, as políticas de combate a insegurança alimentar se esgotaram, logo, fomentar trajetórias coletivas e territoriais é necessário para a criação de novas políticas públicas eficientes no setor.
“Queremos inaugurar uma nova etapa, uma nova geração de políticas públicas, baseadas no território, na agroecologia, que seja desbancarizado, que privilegie a participação das mulheres e jovens, que os projetos sejam territoriais e coletivos”.
Marcelo Leal
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