17 de junho de 2026

Feira do MPA em Tarilândia: um marco de resistência, produção e convivência
Por Érica Anne (MPA-Rondônia)
Tarilândia, Jaru (Rondônia) – A Feira Agroecológica do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no distrito de Tarilândia, município de Jaru, é muito mais do que um ponto de comércio. Ela se estabelece como um símbolo político e social, uma afirmação da capacidade camponesa de produzir com qualidade e comercializar diretamente, desafiando a lógica de exploração e fortalecendo a agricultura familiar. Desde sua fundação, são 15 anos de história em que a organização se estabeleceu como um símbolo de resistência camponesa, um espaço vital para a produção de alimentos saudáveis e um ponto de encontro social e político para a comunidade local.

Resistência e identidade na produção sem veneno
A existência da feira é, em sua essência, um ato político. Ela nasceu da necessidade de superar a exploração dos atravessadores que compravam a produção a preços irrisórios e aproveitando das dificuldades para o escoamento. A proposta do MPA de venda direta do produtor ao consumidor foi e continua sendo uma estratégia de sobrevivência e emancipação, um manifesto claro de que é possível produzir com qualidade e comercializar de forma justa.
O compromisso com a produção sem veneno é um dos pilares mais fortes desse eixo. Embora a transição para uma agricultura 100% agroecológica seja um processo contínuo, a produção destinada à feira, especialmente a de quintais, é rigorosamente livre de pesticidas. Essa escolha não é apenas uma questão de saúde, mas uma identidade de resistência, um modelo alternativo de alimentação saudável e sustentável que desafia as práticas convencionais e reforça a autonomia dos pequenos agricultores.
A feira, portanto, é uma demonstração de viabilidade: em um cenário de desafios como intempéries e sazonalidades, ela demonstra que a agricultura familiar pode ser viável e bem-sucedida, comunicando uma mensagem de esperança e resiliência.

Convivência, apoio e fortalecimento comunitário
Mais do que um local de compra e venda, a Feira do MPA é um ponto de encontro e de fortalecimento de laços comunitários. Conforme destacado por Sebastiana Babilon, coordenadora estadual do MPA e moradora do distrito desde 1992, “A existência da feira é a prova de que o movimento dá certo. Ela é o nosso compromisso de que é possível produzir com qualidade e comercializar de forma direta. Mas, acima de tudo, a feira não é apenas um espaço econômico; ela é, essencialmente, um espaço social. É um local de convivência, onde as pessoas vêm para sentar, fazer rodas, conversar e se reencontrar,” enfatizou.
Esse espaço proporciona a troca, amizades e suporte psicológico fundamental para os feirantes e a comunidade. Maria Leda, por exemplo, descreve a feira como um lugar onde se conversa, se distrai e se sente bem, utilizando sua banca para iniciativas de doação de roupas e livros, transformando-a em um centro de solidariedade e interação. A lealdade dos clientes, que muitas vezes se tornam amigos, e a interação entre os produtores reforçam o senso de pertencimento e bem-estar.
As mulheres desempenham um papel central nesse eixo, sendo 90% das feirantes e responsáveis não apenas pela produção e venda, mas também pela manutenção e cuidado do espaço, evidenciando seu empoderamento e liderança comunitária. A juventude também é envolvida, com crianças que crescem ajudando nas bancas e desenvolvendo habilidades sociais.

Renda complementar e valor simbólico
Embora o aspecto econômico não seja o único ou principal motor da feira, ele é inegavelmente importante. A renda gerada, muitas vezes complementar, é fundamental para o sustento das famílias, especialmente para as mulheres, e contribui para a autonomia financeira dos pequenos agricultores. Produtos como queijos, requeijões, hortaliças e derivados de milho, produzidos de forma natural, encontram um mercado consumidor fiel que valoriza a qualidade e a origem.
No entanto, a feira enfrenta desafios econômicos, como a variação na movimentação e a necessidade de diversificação de produtos para atrair mais clientes. A infraestrutura, embora construída com esforço coletivo, precisa de reformas, e a falta de apoio municipal é uma constante. A logística, especialmente as estradas em períodos chuvosos, também afeta o deslocamento dos feirantes e a regularidade das vendas.
Mesmo com esses desafios, o valor simbólico da renda da feira transcende o monetário. Ela representa a dignidade do trabalho camponês, a capacidade de autossustentação e a afirmação de um modelo de desenvolvimento local e territorial que prioriza as pessoas e o meio ambiente.
Origem e construção coletiva: a resposta coletiva à exploração
A história da feira, começou com discussões em 2010 sobre a necessidade de feiras livres que conectassem produtores e consumidores diretamente. A motivação era clara: combater a exploração dos atravessadores. “Os picaretas, como se diz, levavam os produtos da gente muito barato. Fazia, ia nas linhas comprar, mas sempre pagava um preço muito baixo nas coisas. E a gente produzia muito… perdia às vezes e a gente não tinha pra onde vender,” relata um dos entrevistados, militante do MPA e feirante, Luis Ferreira, evidenciando a urgência de um canal de venda justo.
Em 2011, a feira foi inaugurada em um espaço alugado. A escolha do dia e horário – sextas-feiras à tarde – foi feita por votação popular entre os consumidores. O desejo por um espaço próprio, que garantisse a autonomia e a continuidade do projeto, levou as famílias do MPA a uma campanha de arrecadação em 2012, onde cada família doou um bezerro para a compra do terreno. A construção do barracão de 20×10 metros, com cozinha e banheiro, foi realizada em um grande mutirão, envolvendo grupos de base e militantes como o Sr. Agel Angelino Apolinário, da L628. Infelizmente faleceu há uns três anos. E o outro é o Sr. Adriano Silveira, da L634, que infelizmente nesse período está enfrentando um câncer de pulmão. Eles atuaram como mestres de obra. A inauguração ocorreu em 23 de fevereiro de 2013, com a participação de muitas pessoas e membros do MPA de outros municípios, conforme relato da Sebastiana.
Inicialmente, 17 famílias participavam da feira. Apesar de um enfrentamento com a prefeitura local, que tentou desviar a feira para a rua, o compromisso com a produção sem veneno e a garantia da qualidade dos produtos manteve a feira em seu propósito original. Atualmente, 12 famílias continuam como feirantes, algumas desde o primeiro dia.

Desafios e perspectivas futuras
A Feira do MPA em Tarilândia enfrenta desafios significativos que testam a resiliência de seus produtores. O principal obstáculo é manter a constância da produção diante de um fluxo de vendas instável. Os feirantes relatam uma mudança no mercado: a venda em grandes volumes diminuiu e a concorrência tornou-se mais acirrada, dificultando o escoamento dos produtos. Além disso, a logística, prejudicada pelas estradas em períodos chuvosos, e a escassez de apoio municipal obrigam os agricultores a buscarem soluções por conta própria.
No entanto, a feira continua sendo um marco para o município, servindo como referência de qualidade para a comunidade e comerciantes locais. A renda gerada, embora muitas vezes complementar, é fundamental para o sustento das famílias, especialmente para a autonomia das mulheres e o fortalecimento da agricultura familiar.
Mais do que um simples ponto de venda, a feira é um ecossistema de apoio mútuo e compromisso com a produção de alimentos saudáveis. Ela representa a força da organização popular, o empoderamento feminino e a construção de uma comunidade engajada que, apesar dos obstáculos, continua a florescer como um exemplo de desenvolvimento local.



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