13 de maio de 2026
Erica Oliveira; Joana Horta | MPA Brasil

Sob a mística da resistência e o compromisso com a soberania alimentar, a tarde deste dia 12 de maio de 2026 foi marcada pelo debate geracional no 4º Encontro Nacional do MPA. A mesa “Nova Geração Camponesa e as Infâncias no Movimento” reuniu dirigentes, especialistas e a juventude para projetar o campo brasileiro das próximas décadas.
Kriscia Argolo, do coletivo de educação do MPA, Juscilene Xavier e Dennis Teixeira, do coletivo de juventude do MPA e Márcio Pochmann, presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compuseram a mesa. O debate enfatizou que a renovação do campesinato parte de uma disputa política por território e dignidade.
A missão da juventude camponesa
O debate central girou em torno da necessidade de garantir condições para que os jovens permaneçam na terra. A análise apresentada reforça que a “nova juventude” só existirá se houver a retomada e proteção dos territórios tradicionais, combatendo o êxodo: “Para essa juventude acontecer de fato, a gente precisa de território, a gente precisa retomar os territórios e permanecer neles. Mas a gente também precisa fazer reforma agrária”, afirmou Kriscia, dirigente da Regional Chapada Diamantina, na Bahia.
Para o movimento, a juventude não deve ser apenas um coletivo a parte, mas um corpo político com intencionalidade, capaz de organizar a massa e liderar processos de formação que conectem o conhecimento técnico à realidade das comunidades.
Kriscia é uma das lideranças do MPA que articula a Ciranda, espaço de acolhimento de bebês, crianças e jovens. No 4º Encontro Nacional, a Ciranda reúne mais de cem crianças e cinquenta educadores populares, de vinte estados. A iniciativa é parte central na metodologia de luta do movimento, unindo educação popular e construção de futuro com soberania alimentar.
Organizada por faixas etárias, a Ciranda divide os grupos de 0 a 2 anos (com um cuidador por criança), 2 a 4 anos, 5 a 10 anos e 10 a 16 anos. As atividades incorporam elementos da cultura camponesa, e todos se encontram em místicas de abertura, merendas e plenárias.
Para a educadora popular e cirandeira Vivian Catenacci, o espaço é de reafirmação camponesa e aprendizado: “As crianças têm consciência do território, da terra, das sementes, do sol e das águas. Falam sobre respeito, compartilhar e cuidado com o outro”, destaca. A filha de Vivian, Isabel, de 9 anos, compreende a importância desse espaço: “a gente aprende várias coisas, sobre a vida dos camponeses de vários estados e como se ajudar”.
Além do valor pedagógico, o acolhimento permite que as mães e militantes participem das frentes de trabalho. Trazer as crianças ao encontro reafirma o compromisso do MPA com um futuro que já acontece.
Na plenária a questão das infâncias foi apontada como historicamente negligenciada pelas políticas públicas. As crianças camponesas foram reafirmadas como sujeitos de direitos e parte integrante da luta coletiva. O debate propôs a transição de uma visão de “infância sem lugar” para uma prática de “cenas permanentes”, onde o olhar sobre a criança ocorre no cotidiano do território, e não apenas em eventos pontuais.
A interpretação política é clara: educar a criança no campo, com escolas que respeitem a biodiversidade e a cultura local, é a única forma de garantir que elas se apropriem da missão de futuros guardiões da agrobiodiversidade.

Desafios demográficos e soberania nacional
As projeções apresentadas na plenária trouxeram números que acendem um alerta para o futuro do país. O Brasil caminha para um pico populacional em 2041, seguido de um rápido envelhecimento. Mais do que isso, os dados revelam uma desigualdade racial e social profunda: 70% da população que será adulta em 2050 nasce hoje em famílias pobres. A população brasileira estimada para o ano 2100 é de 163 milhões, um recuo significativo que impactará a produção de alimentos e a economia. Esses dados reforçam que, sem um Estado forte investindo nas infâncias e juventudes de hoje, em seus territórios, o Brasil corre o risco de se tornar um país vulnerável e dependente.
O desafio demográfico brasileiro vai além da queda na natalidade; ele revela uma crise de sentido que ameaça a base da soberania nacional. Quando “um terço dessas crianças pesquisadas informou que não tem sentido na vida”, como destacou Pochmann, e a violência se torna uma constante na trajetória de meninas e jovens, o país sacrifica seu recurso mais vital: o povo. O economista apontou que vivemos num mundo que valoriza “a competência individualista em detrimento de uma cultura de paz”, um cenário que profunda vulnerabilidade social e política.
Apesar da apresentação de dados sensíveis, a mensagem final da plenária foi um chamado à rebeldia de sonhar, reconhecendo a resistência camponesa. O 4º Encontro Nacional do MPA reafirmou que a construção de um projeto popular para o Brasil exige a coragem de fazer o “impossível se tornar possível”, nas palavras do jovem camponês Dennis Teixeira. O horizonte de luta para a nova geração camponesa passa, obrigatoriamente, pela defesa da soberania nacional, pela agroecologia e pelo fortalecimento dos laços comunitários.


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