Foto: Adilvane Spezia

Foto: Adilvane Spezia/MPA

As mais de 120 pessoas vindas de 8 municípios da região, nesta quarta-feira 8 de novembro, debateram sobre a alimentação saudável, sementes, biodiversidade, vida saudável, saúde e a cura pelas plantas, no município de em Anchieta, SC, durante o II Seminário Municipal “Comida de verdade no campo e na cidade” que está sendo organizado pelo Paróquia Santa Lúcia, Prefeitura Municipal de Anchieta, PJR, PJMP, MPA, MMC, SINTRAF, Epagri e pela Cooperativa Oestebio.

Na oportunidade se fazem presentes camponeses e camponesas da região, trabalhadores urbanos, representantes do poder público, líderes religiosos e comunitários, bem como, vereadores dos municípios de Anchieta e Saltinho. O Seminário, que já na abertura, num momento místico, trouxe a diversidade das plantas medicinais, o conhecimento popular e os saberes tradicionais, bem como, a importância de biodiversidade, da água, da terra e das sementes crioulas e a luta dos camponeses.

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De início, Frei Sergio Görgen, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) aponta: “Vou começar por algo bem importante, pelo nosso estomago, pelo que comemos. O intestino da gente é chamado de segundo cérebro, porque se nosso intestino não estiver funcionando nosso cérebro também não vai funcionar. Logo, alguém mal alimentado não consegue pensar direito, a má alimentação em alguns lugares tem causado dificuldades no aprendizado”.

No Brasil a base a dieta alimentar da população está vinculada apenas a 4 grãos a soja, trigo, milho e arroz, esse dado pouco se altera quando falamos de nível mundial. Segundo Frei Sergio isso tem uma explicação:

“Porque para as multinacionais esse é um negócio lucrativo, para eles transformar nossa dieta apenas em grão, que são produzidos com apenas 3 componentes NPK, Nitrogênio (N), ‎Fósforo (P) e ‎Potássio (K), somado a produção com veneno, que primeiro vai apara terra, água, ar e nos alimentos”.

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Na oportunidade também foram registrados o caso de Lucas do Rio Verde no Mato Grosso onde foi encontrado resíduo de veneno no leite materno, essa região é a maior consumidora de veneno do país. Outro relato é do Rio Grande do Sul, onde as grandes plantações de trigo estão sendo dessecadas com 24D para uniformizar colheita. “Esse veneno fica no grão, esse trigo vai para o moinho de onde sai em farinha e vai para nossa mesa. Nosso alimento além de mais pobre, também está envenenado, pois a mesma empresa vende o veneno e as sementes transgênicas, fabrica os remédios. A Monsanto e a Bayer, eles não estão preocupados com a saúde das pessoas, eles estão preocupados com o lucro”, denuncia o dirigente do MPA.

Dessa forma compreendemos que a produção, a alimentação e a saúde estão interligadas, e, não existe nada mais importante do que cuidar da vida. Como diz Frei Wilson Zanatta, “eu não vou começar falando de remédio, pois há 450 anos antes de Cristo o pai da medicina, Hipócrates, já dizia ‘Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio’ ”.

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De fato este é uma receita que perpassa o tempo, mas segundo Frei Zanatta como podemos no alimentar de forma saudável, “se encontramos 15% de celulose no queijo industrializado, isso é muito grave, pois legalmente eles podem vender e nós, não podemos vender nosso queijo, salame, ovos, mas eles podem vender”, denuncia ele. Assim como denuncia o papel que a mídia comercial tem exercido na desconstrução da cultura popular e da inferiorizarão da mulher.

Esse conjunto tem causado boa parte das doenças que se tornaram comum em nosso meio, como depressão, câncer, ansiedade, diabetes, osteoporose, colesterol, triglicerídeos, colesterol, hipertensão, renite alérgica. “A grande causa da depressão é o veneno que mexe com sistema central, sistema nervoso da pessoa humana”, denuncia Frei Sergio. No Brasil cada pessoa consome 7,5 litros de veneno por ano, índice que assusta até quem é leigo no assunto.

O veneno é uma das 3 causas da depressão como descreve Frei Zanatta: “ O primeiro é o veneno, que está na água, na terra, no ar, no alimento, não existe mais um lugar que não tenha veneno; O segundo são as relações quebradas, por qualquer coisa somos capaz de brigar, passamos a visitar muito pouco, passamos a nos relacionar com grupos vada vez menores; E, o terceiro é que colocamos outras coisas o dinheiro, bens materiais, poder, lucro, no lugar de Deus, a fé fica em último plano. Não que eu reze e Deus me concede a benção, é que se eu amo Deus, eu amo o próximo”, descreve Frei Zanatta.

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Num piscar de olhos a manhã tornou-se meio dia e depois de muitos debates sobre a alimentação saudável, a importância dos alimentos e a saúde, o almoço foi servido, uma galinhada, ou galinha com arroz, uma diversidade de verduras, pães e sucos. As mais de 120 refeições foram preparadas de forma coletiva, e com os ingredientes trazidos pelos próprios participantes, ou seja, na roça e da horta dos participante.

A parte da tarde foi dedicada a troca de experiências e como preparar os remédios caseiros. A troca de experiências motivou os presentes a compartilhar seus conhecimento. Frei Wilson Zanatta explicou que não existe nada igual do que compartilhar esse conhecimento. “Quem quer ganhar dinheiro não vai ser verdadeiro, aqui, o que nós queremos é que todos saibam fazer e multipliquem esse conhecimento e com isso cuidar da saúde e da vida de todo mundo”, explica ele.

O momento permitiu que os presentes debatessem sobre o porquê e como a indústria de alimentos e medicamentos tem se dedicado a descontruir o conhecimento camponês, o conhecimento popular. Por essa razão é necessário compartilhar esse conhecimento tradicional, não só das plantas medicinais, explica Frei Zanatta.

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Por sua vez, Frei Sergio aponta ser um ato heroico a preservação da biodiversidade, “as pessoas perguntam porque tem tanto câncer e eu respondo, porque cortaram os pomares e plantam soja até de baixo das escada, esse modelo não tem sustentação e o oeste catarinense, em especial essa região, é uma das trincheiras mais importantes de resistência camponesa. Eu sonho com uma Agricultura Camponesa diversificada, variada, com camponês bem pago por produzir alimento saudável, com a juventude voltando ao campo fazendo o enfretamento e lutando contra uma Agricultura do Agronegócio, do veneno”.

Na ocasião também foi realizado o lançamento do livro “Trincheiras da resistência camponesa – sob o pacto de poder do agronegócio”. A obra traz um contexto dos últimos 16 anos em que o agronegócio se implantou no país, “tento trazer as consequências disso para a sociedade. O agronegócio trouxe concentração de terra, alimento envenenado, monocultivo. Mas nesse período também teve muita resistência, a própria recuperação das sementes crioulas, os trabalhos de agroecologia e outros”, destaca Frei Sergio, que é o autor do livro.

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Sobre a Reforma da Previdência e o Preço da Luz

Se o tema é saúde, alimentação saudável e compreendemos como tudo está interligado de alguma forma, a Reforma da Previdência e o rombo no Preço da Luz irão afetar de forma direta os camponeses e camponesas, por consequência os trabalhadores urbanos.

“Há uma pressão enorme para que se vote e passe a Reforma da Previdência, se passar, irá afetar os camponeses e camponesas, assim como, irá quebrar o orçamento dos municípios. A CPI da Previdência mostra o que nós não já vínhamos falando, nós não somos os carrapatos, os parasitas da previdência”, explica Frei Sergio. Os camponeses e camponesas contribuem com a previdência por meio do Funrural, o CONFINS e a por meio da venda e compra de produtos, “153 bilhões de reais foram arrecadados para a previdência por meio da arrecadação agrícola”, afirma o dirigente camponês.

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Outro fator que irá atingir em cheio os camponeses e camponesas é privatização do sistema elétrico brasileiro. “Já venderam seis barragens, logo quem compra essas barragens vende a energia conforme a empresa quer, e não mais o governo controla. As barragens quando são do governo tem leis que impedem elas de superfaturar com a produção de energia, mas quando ela torna-se privada, o preço quem coloca é o dono e nenhum lei o controla”, explica Frei Sergio.

A privatização do sistema elétrico vai derrubar os 50% de subsídio para os consumidos do campo, então se as medidas previstas forem aprovadas, além dos camponeses perderem esse subsídio de 50% no valor pago pela energia, o valor a ser pago pela energia irá aumentar em 80%.

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“Parece que o que está em jogo é se vamos ser uma nação livre ou se vamos nos tornar Colônia do Estados Unidos, não mais de Portugal como fomos no passado. O Brasil tem 4 poderes, o executivo, legislativo, judiciários e o povo. Quando os 3 primeiros poderes apodrecem, que é caso do nosso país, cabe aos quarto poder se levantar e assumir o comando”, concluir o dirigente do MPA.

 

Por Adilvane Spezia – Jornalista|MPA