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Marcos Antonio CorbariAUTOR(A)
Marcos Antonio Corbari18 de janeiro de 2026
Marcos Antonio Corbari | MPA Brasil

O Brasil do campo sempre viveu entre dois projetos incompatíveis: de um lado, o agronegócio da morte, que concentra terra, lucra com veneno, destrói biomas e transforma comida em commodity; de outro, o campesinato, que cultiva vida, produz alimento de verdade, cria comunidade, protege a água, guarda sementes e sustenta o povo brasileiro mesmo quando o Estado vira as costas para ele. O agro que explora, oprime e massacra os povos em nome do lucro e o campesinato que compreende e preserva a natureza, defendendo a vida a partir da organização e mobilização dos povos.
Há 30 anos, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) escolheu um lado — o lado do povo. E, desde então, tornou-se uma das trincheiras mais firmes de resistência, organização e construção de um projeto popular de país. O MPA não apenas reuniu agricultores, mas atuou de forma decisiva junto com outros movimentos dos campos, das águas e das florestas para resgatar a palavra “campesinato”, arrancando-a do apagamento imposto por quem queria reduzir o trabalhador rural a um “empreendedor do agronegócio”. Devolveu ao termo sua força política, coletiva e histórica: campesinato é classe, é identidade, é luta — e hoje está mais vivo do que nunca.
Outro ponto que unifica o simbólico e o factual é a frase que ecoa através dos movimentos da Via Campesina e ganha conotação de palavra de ordem no MPA — “comer é um ato político”. A caminhada de três décadas dos pequenos agricultores e pequenas agricultoras organizados sob a bandeira do campesinato mostra que essa frase nunca foi slogan vazio. Ela nasce da constatação de que, quando o agronegócio controla a terra, a água, as sementes, a ciência e o Estado, não estamos falando apenas de comida: estamos falando de poder.
Esse chamado nos faz refletir quem come, o que come, de quem compra, quem produz, quem lucra? Tudo isso compõe uma disputa sobre que Brasil queremos ser. E é nessa disputa que o MPA construiu sua força política: ao defender a soberania alimentar o movimento afirma que o povo tem o direito de decidir como se produz e o que se produz — e não as corporações transnacionais. A principal bandeira do MPA não é o pano encarnado que simbolicamente é erguido nas marchas e mobilizações, mas sim o que nasce da terra e vai pra o prato.
Em 30 anos o MPA mostrou que a resistência camponesa não cabe nos moldes estreitos da “agricultura familiar” domesticada pelos governos. A força do movimento está em garantir que a agroecologia não seja moda acadêmica, mas prática concreta de vida; em denunciar a mentira do “agro é pop” e afirmar que agro é veneno, expulsão e dependência; em construir experiências próprias de abastecimento popular, rompendo com atravessadores e monopólios; em formar uma nova geração camponesa, a partir de jovens que se orgulham da terra e da luta; em reafirmar a terra para quem trabalha nela como princípio irrenunciável.
O MPA ousou dizer o óbvio que muitos temem dizer: não existe democracia com latifúndio. Nesse sentido construiu coletivamente um documento que sintetiza a interpretação do país a partir da sistematização dos saberes e experiências do campesinato: o Plano Camponês é um verdadeiro programa de transição rumo à soberania alimentar e poder popular. Ele não fala apenas de assistência técnica e crédito, ou de modos e sistemas de trabalhar e produzir na terra, ele aponta para a ruptura com a lógica de dependência que estrangula o povo.
Os eixos suleadores desse documento são as soberanias e elas sintetizam um projeto de país: Soberania Alimentar (comida de verdade, para o povo e não para exportação); Soberania Hídrica (água como direito, não como negócio); Soberania Energética (produção comunitária e descentralizada contra o monopólio das grandes empresas); Soberania Territorial (defesa radical da terra como espaço de vida e dignidade); Soberania Genética (sementes crioulas e biodiversidade nas mãos do povo, não das transnacionais); Soberania do Conhecimento (ciência, cultura e comunicação vinculadas à vida real, aos saberes populares e às demandas da classe trabalhadora).
Através do Plano Camponês o MPA convoca os trabalhadores rurais e urbanos à construção de uma alternativa concreta ao modelo que destrói, envenena e gera fome enquanto exporta soja e outras comodities. O MPA sempre afirmou que a luta do campo e a luta da cidade são uma só. A ideia de aliança operária e camponesa não é nostalgia revolucionária, é a constatação prática de que o trabalhador urbano e o camponês enfrentam o mesmo inimigo — o capital financeiro que controla a terra, a comida, a energia, o trabalho e até a política institucional.
Nesse sentido, a construção do poder popular é a estratégia que atravessa 30 anos de história do movimento através dos comitês, assembleias, redes solidárias, produção comunitária, educação do campo e autonomia organizativa. Neste momento histórico em que o Brasil enfrenta novamente ameaças autoritárias, violência política, destruição ambiental e tentativas de captura das instituições pelo poder econômico, o campesinato organizado ocupa uma posição estratégica e o MPA traz à pauta o que tem afirmado em seus 30 anos de história: sem terra, não há liberdade; sem alimento saudável, não há cidadania; sem participação popular, não há democracia; sem campesinato vivo, não há futuro para o Brasil.
Por isso, celebrar os 30 anos do MPA é celebrar mais do que a história de um movimento. É celebrar a esperança ativa, a teimosia política de quem insiste que o Brasil pode — e deve — ser construído pelas mãos de quem trabalha. É reafirmar que o campesinato é sujeito político indispensável na defesa da democracia, da soberania nacional e da dignidade do nosso povo.
O MPA não olha para trás. Olha para a terra — e a terra, quando cultivada pelo povo, sempre aponta para o futuro.
(*) Marcos Antonio Corbari | Jornalista, comunicador popular e militante do MPA Brasil.
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