Em artigo Frei Sérgio aborda a simbologia coletiva do natal

By dezembro 23, 2016Artigo

 Mesmo com a mercantilização do natal  pelo capital,  essa data ainda mexe muito com o inconsciente coletivo, em Artigo  Frei Sérgio Gorgen, aborda a origem desse festejo e sua gênesis na coletividade e na comunidade, que  vivem  uma batalha ideológica onde  o natal coletivo do bem comum peleia com o natal do individuo e do mercado.

Confira o Artigo na Integra:

O Natal que alimenta sonhos

Natal é muito mais que uma data no calendário. É um símbolo que remexe com nosso inconsciente coletivo.

A ternura, o encanto e a esperança renascem nas vidas que nascem. É a teimosa utopia humana de sempre acreditar que o melhor vence o pior, que a ternura vence a dureza, que o encanto é maior que o preconceito e a exclusão e a esperança sobressai sempre sobre os agouros maus que tentam cobrir de sombras os clarões do futuro.

Uma criança pobre, filha de pais trabalhadores, nascida numa madrugada fria, numa gruta de pastores, longe de casa, numa nação ocupada por forças estrangeiras com os poderosos locais aliados e submissos é a condensação simbólica que energiza as esperanças dos que creem nas potencialidades do amanhã mais do que nas imposições dos retrocessos de hoje.

Jesus criança é, neste Natal brasileiro de 2016, a força dos fracos, a esperança dos que não desistem, a ternura dos que acreditam na humanidade, o encanto dos que se movem na vida em busca de utopias transformadoras dos limites do presente.

Voltemos brevemente à fonte originária desta densidade simbólica chamada Natal.

No relato do médico, historiador e evangelista Lucas, o imperador romano Cezar Augusto ordenara um recenseamento geral na Judeia e na Galileia, território de Israel militarmente ocupado. Estes censos romanos tinham duas finalidades: avaliar a força militar do inimigo em possíveis rebeliões e mapear a cobrança de impostos.

Cada família deveria comparecer em sua aldeia ou cidade de origem.

No relato de Lucas, José vivia em Nazaré, mas sua cidade de origem era Belém. Para lá foi com sua esposa, Maria, grávida, para cumprir a imposição das forças de ocupação. Com a aldeia cheia de gente, as poucas hospedarias estavam lotadas. E com tanta gente estranha circulando, nenhuma família confiava em hospedar visitantes desconhecidos.

Maria deu a luz ao seu filho numa gruta de pastores de ovelhas, nos arredores da aldeia, sem conforto e sem pompa, em meio à solidariedade dos cuidadores de ovelhas e seus inofensivos animais.

Não fosse o significado que o filho daquela noite passou a ter para os destinos da humanidade, aquele teria sido um parto a mais, jamais digno de qualquer registro.

No relato de Mateus, outro evangelista a registrar este momento, descreve ainda os primeiros dias desta criança rodeada de simbolismo e expectativas. O povo esperava um libertador, um messias, que deveria nascer por aqueles tempos. A Galileia tinha um arremedo de rei, chamado Herodes, que se vendera aos romanos. Chegou até ele a boataria que o messias nascera. Para não correr riscos em seu poder e para não deixar crescer as esperanças dos pobres de que o Messias crescia em algum lugar qualquer daquelas paragens, ordenou o assassinato em massa das crianças com menos de dois anos.

Não é de hoje que títeres vendidos buscam todas as formas de assassinar as esperanças do povo. Nem nisto os de hoje são criativos.

José e Maria buscam o exilio no Egito para salvar a vida do filho.

Que voltará à Nazaré alguns anos depois para brilhar como uma luz capaz de incendiar esperanças de vida melhor e para testemunhar um Deus diferente e presente na história humana, germinando e fazendo crescer nela suas melhores potencialidades de amor, solidariedade, justiça e bem querença.

Por isto que o Natal tem tanta magia e simbolismo. São nossos melhores sonhos que sempre renascem apesar das vicissitudes dos tempos.

Frei Sérgio Antônio Görgen é frade Franciscano.