Pela Vida das Mulheres

Pela Vida das Mulheres

 

 

Chega mais um 8 de março, Dia Internacional da Mulher. Das poucas datas que não foram criadas pelo comércio, essa é uma delas. Essa data é símbolo de resistência e os fatos históricos, embora invisibilizados, são públicos.

 

Remontemos partes dessa história cronológica que balizam essa data. Em 1909, em Nova York, 15 mil mulheres se organizavam e lutavam por melhores condições de trabalho, cuja carga horária poderia chegar à 16h por dia, inclusive nos domingos. Em 1910, na Alemanha, uma mulher, Clara Zetkin, sugere uma jornada de manifestações, chamando atenção do movimento socialista para a situação desigual das mulheres com relação aos homens. Em 1911, 146 trabalhadoras e trabalhadores morreram queimados na fábrica onde trabalhavam, Companhia Tringle. Desse ocorrido, 125 mulheres perderam a vida lutando por melhores condições de trabalho. Em 1913, nos Estados Unidos e em países da Europa, várias manifestações das mulheres ocorreram pelo direito de votarem e serem votadas. 1917 é simbólico para a Revolução Russa, pois operárias protestavam contra a fome que se acentuava com a 1ª Guerra Mundial, do que seria o preâmbulo da Revolução Russa. Essa última, concretamente é o fator mobilizador da criação dessa data, considerada internacional em 1918, inclusive com direito a feriado nacional como o Dia da Mulher Heroica e Trabalhadora. Em 1975, a ONU confirmou a data para que ficasse na história as conquistas das mulheres.

 

No Brasil, essa data estava abafada por flores, massagens, dia “do cuidado”, da maquiagem e sabe-se lá mais o que – sim, esse tipo de “comemoração” é largamente utilizada atualmente – quando em 2006, Mulheres da Via Campesina, ressignificam o 8 de Março e denunciam as barbáries da transnacional da celulose, no Brasil, na época conhecida como Aracruz Celulose. As mulheres denunciaram de uma só vez os 18 mil hectares de terras roubados dos povos Tupiniquim E Guarani, os 10 mil hectares roubados dos Quilombolas, os mais de 250 mil hectares ocupados por uma só planta, que não gera frutos, nem sementes e que, juntamente com as fábricas consomem cerca de 2 milhões e meio de água por dia, sem pagar nada por isso. Ainda lembremos que grande parte desse roubo dos povos tradicionais ocorreu entre 1968 e 1973, em pleno período de ditadura militar, que juntamente com a matança e destruição dos povos, ocorreu a destruição da Mata Atlântica e dos Pampas.

 

Lembremos dessas mulheres que colocaram na pauta de discussão da sociedade o questionamento: o que é mais importante, produzir alimentos saudáveis para o povo ou produzir papel para limpar a bunda de europeus? Não se enganem, dessa última produção, para o Brasil e o povo brasileiro fica a destruição, pois os lucros vão para “meia dúzia de senhores” como nos lembram no documentário que denuncia esse crime contra a soberania do Brasil, “Rompendo o Silêncio”.

 

Essas heroicas trabalhadoras, continuam defendendo a soberania do Brasil, suas terras para o povo brasileiro para produzir comida limpa e saudável, os recursos naturais para o povo brasileiro e a defesa dos direitos da classe trabalhadora. Até aqui uma pauta mista que defende os direitos de homens e mulheres, das zonas rural e urbana, e que a agricultura camponesa é capaz. Recorremos aos números da agricultura familiar e camponesa para justificar essa afirmação na qual ocupam, em números redondos, 30% das terras, 24% dos recursos de financiamanentos destinados para a produção e são responsáveis pela produção de 70% da comida que vai à mesa do povo brasileiro (Dados IBGE 2010).

 

À essa pauta, juntamos na atualidade a luta pela aposentadoria, contra o desmonte da seguridade social e pela vida das mulheres. A violência contra as mulheres mata e fere todos os dias e o que vemos nesse desgoverno machista, facista, racista é um “esforço” perverso contra todas nós.

 

Antes de encerrarmos essa singela reflexão sobre essa data, de pautas que parecem medievais mas que são contemporâneas, de aumento das violências, de perda de direitos e de morte das mulheres, que embora “mulheres brancas, instruídas e classe média”, como diz uma querida companheira, sejam atingidas por essa avalanche de injustiças, são as trabalhadoras negras que perdem seus filhos e filhas todos os dias. Dessa herança escravocrata maldita, como diz Jessé de Souza, que é intocada para que os brancos e brancas possam continuar usufruindo de seus privilégios. Lembre-se disso companheira, quando olhares à tua volta, numa reunião de partido, movimento, igreja ou qualquer outro tipo de organização e não avistares nenhuma ou pouquíssimas mulheres negras, pois essas ficaram limpando a tua casa ou cuidando dos teus filhos e filhas.

 

Essa herança não serve para o feminismo popular, avancemos todas!

Pela vida de todas as mulheres!

8 de março de 2019.

 

Letícia Chimini

Militante do Movimento dos Pequenos Agricultores

Doutoranda em Serviço Social-PUCRS