O que esconde a arrogância do grupo político de Bolsonaro? Foto: Reprodução/Web.

O que esconde a arrogância do grupo político de Bolsonaro? Foto: Reprodução/Web.

Passadas algumas semanas do final do segundo turno das eleições de 2018, o perfil do governo do presidente da República eleito, Jair Bolsonaro (PSL – RJ), vai tomando forma no horizonte. E o contorno que aparece é o de um grupo político arrogante, que acredita ter descoberto a roda. O fato de o presidente eleito ter escolhido como meio de comunicação as redes sociais e de ter deixado de lado os noticiários tradicionais não significa que possa dizer o que bem entende – tipo anunciar o fim do Ministério do Trabalho como se tivesse trocando de roupa. O economista Paulo Guedes, que vai ser o superministro da área econômica, nas entrevistas fala com os jovens repórteres como se fosse um capataz de estância – termo usado no linguajar dos gaúchos para designar pessoa autoritária. Há uma competição para saber quem é mais autoritário para tratar com a imprensa entre Guedes e o Onyx Lorenzoni, deputado federal pelo DEM gaúcho que ocupará a Casa Civil. Entre os jornalistas, Lorenzoni sempre teve fama de não levar desaforo para casa. A arrogância é uma novidade no perfil do deputado.

Sou repórter e sei que é difícil ficar de plantão na porta de alguém que precisa entrevistar e que está na cômoda posição de não precisar falar. Nesse caso, o nosso serviço é como “tirar leite de pedra”, expressão cunhada nas redações para dimensionar a dificuldade de conseguir informações. Tal situação faz parte da formação do repórter. Na época em que não existia internet, em situações como essa, o nosso calvário era brutal. Lembro que, certa vez, na década de 90, eu estava de plantão na porta do prédio do apartamento de um governador recém-eleito no Rio Grande do Sul. Ele odiava a grande imprensa. E estava formando o seu secretariado. Entre repórteres de jornal, rádio e TV, éramos umas 20 pessoas fazendo o plantão na frente do prédio. Faltando uma hora para terminar o meu turno, eu não tinha absolutamente nenhuma informação relevante, ou mesmo irrelevante, na mão. Um dos meus orgulhos sempre foi o de nunca regressar para a redação de mãos vazias. Mas, como as coisas estavam acontecendo ali, eu pensei: é hoje que vou engolir o meu orgulho. Tive sorte. Entrei em um boteco para tomar um refrigerante e puxei conversa com um desconhecido.   Ele era vizinho do antigo governador eleito. Com promessa de não identificá-lo, acabei fazendo uma reportagem sobre alguns nomes de pessoas que tinham visitado o eleito nos últimos dias.

No caso de Bolsonaro, os colegas não têm essa opção que tive lá anos 90, porque hoje existe a internet. E ele usa as redes sociais para se comunicar. Isso faz com que, na ausência de entrevista, os noticiários precisem usar os conteúdos ditos por ele nas redes. Isso é um salto no escuro, porque muitos desses conteúdos são apenas informações que fazem parte do que chamamos de “balão de ensaio” – coisas que são divulgadas para sentir o pulso da opinião pública ou, simplesmente, para esculachar um inimigo político. Isso nos torna “paus mandados do Bolsonaro”. Uma lida atenta nas informações postadas pelo presidente eleito nas redes dá a ideia de que o grupo político dele acredita que tem a exclusividade da honestidade, da competência e do zelo com o dinheiro público. Outros grupos políticos que passaram pela presidência da República tinham o mesmo discurso, como o de Jânio Quadros (falecido em 1992), o Homem da Vassoura, como era conhecido, que foi eleito em 1961 e ficou apenas oito meses no poder. Ele renunciou alegando estar sendo pressionado por forças ocultas e abriu caminho para o Golpe Militar de 1964, que instalou uma ditadura no país que durou até 1985. Mais recentemente, foi Fernando Collor de Mello, o Caçador de Marajás, eleito presidente da República em 1990. Ele renunciou em 1992 para escapar do impeachment. O Homem da Vassoura e o Caçador de Marajás perderam o cargo devido à fragilidade dos grupos políticos que os apoiavam. Mas, em nenhum desses dois grupos, somando-se os que apoiaram os presidentes da República Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, foram tão arrogantes como é o do  presidente eleito. Acrescente-se aí a estratégia de atacar a credibilidade dos jornalistas pelas redes sociais.

O atual volume de xingamentos contra a imprensa é inédito na história do país. Por lidar com temas polêmicos, tipo conflitos agrários, nos meus 40 anos como repórter sempre fui muito xingado. Na época em que não existia a internet, e os desaforos eram feitos por telefonemas, cartas e nas entrelinhas de comentaristas. Sempre tive como norma de vida examinar cuidadosamente os conteúdos, tanto dos elogios quanto dos desaforos. Graças a essa prática, fiz algumas correções na minha carreira e encontrei boas pautas que viraram reportagens e livros, como é o caso do “Brasiguaios: Homens sem Pátria”. Mas, às vezes, ficava tão puto da cara com os desaforos que discutia com o autor do xingamento. Com a popularização da internet, eu senti que o jogo tinha mudado. As minhas respostas aos xingamentos viravam munição contra mim. Então, mudei e, nos últimos cinco ou seis anos, eu respondo assim: “sou repórter e público fatos. Não sou debatedor”. O importante para o repórter é não perder o foco. O resto faz parte do trabalho, ou da lida, como se costume falar nas redações.

 

Por Carlos Wagner, repórter

Texto original disponível em: http://bit.ly/2Saj8eh