Foto: Guilherme Weimann

Foto: Guilherme Weimann

Exposição no Centro Cultural da Justiça Federal, no Rio de Janeiro, traz as diferentes formas de violação ou negação de direitos que afetam a vida das atingidas por barragens; as 20 peças que compõem a mostra estão divididas em seis eixos temáticos.

Linhas coloridas e tecidos estampados podem esconder à primeira vista todas as problemáticas que envolvem cada uma das arpilleras, apesar de algumas serem bastante explícitas em relação ao seu conteúdo. As 20 peças que compõe a exposição “Arpilleras: bordando a resistência”, que está no Centro Cultural da Justiça Federal, passaram por uma curadoria minuciosa do Coletivo de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB).

Além do cuidado em relação à diversidade regional, houve também uma preocupação de selecionar obras que conseguissem abarcar as diversas formas de violação e negação dos direitos das mulheres atingidas por barragens constatadas nos últimos anos. No ano de 2010, por exemplo, o Estado brasileiro reconheceu formalmente no relatório do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana que 16 direitos humanos são violados sistematicamente na construção de barragens.

De acordo com Daiane Hohn, integrante do Coletivo de Mulheres do MAB, dentro desse universo de abuso institucional contra as populações atingidas, as mulheres são as principais vítimas. “Existe um debate que vem sendo construído há muitos anos, que constatou e elaborou as especificidades das violências sofridas pelas mulheres atingidas; as arpilleras entraram justamente nesse processo, corroborando pontos já destacados e também jogando luz sobre novos elementos”.

Consolidadas na experiência de mulheres chilenas que se utilizaram da costura como forma de denúncia contra a ditadura militar no país [1973-1990], as arpilleras chegaram ao Brasil em 2013 e se transformou em uma ferramenta de educação popular e auto-organização feminista dentro das regiões afetadas pela construção de barragens. Desde então, já foram confeccionadas cerca de 100 peças, que envolveram aproximadamente 900 mulheres atingidas.

Nessa exposição, que já esteve no final de 2015 no Memorial da América Latina em São Paulo, foram escolhidas 20 peças divididas em seis eixos temáticos. Confira abaixo a explicação de cada um deles:

Eixo 1: Mundo do trabalho

Foto: Vinicius Denadai

Foto: Vinicius Denadai

Muitas mulheres atingidas por barragens mantém trabalhos informais, sem registro, o que gera uma invisibilização e negação de seus direitos. Muitas delas são as responsáveis pelas tarefas domésticas ou por manter a roça familiar. Com a chegada das obras, muitas empresas não reconhecem esses trabalhos e acabam negando o direito à justa indenização.

Esta arpillera foi costurada em setembro de 2015 por atingidas do Quilombo Piririca, situado na parte paulista do Vale do Ribeira, e denuncia a burocracia que dificulta o licenciamento das roças, que é uma prática tradicional nos territórios quilombolas. Com isso, as mulheres são impedidas de realizarem seus trabalhos e, principalmente as jovens, acabam migrando para a zona urbana.

Eixo 2: Participação política e relação com as empresas

Foto: Vinicius Denadai

Foto: Vinicius Denadai

Geralmente, as empresas adotam um conceito patrimonialista de “atingido”. Por isso, reconhecem apenas os que têm a posse legal da terra para meios de reparação. Como na maioria dos casos as terras ou casas estão no nome dos homens, às mulheres é negado o direito ao reassentamento ou indenização. Além disso, elas enfrentam uma resistência dentro da própria organização em nível local, devido ao machismo que também assola as populações atingidas. As arpilleras estão funcionando como uma potente ferramenta de auto-organização.

Esta arpillera denominada “A história de Pedrinha” foi elaborada por moradoras do Acampamento Ilha Verde, localizado no município de Babaçulândia, em setembro de 2014. Atingidas pela barragem de Estreiro, elas tiveram os diversos anos de trabalho na roça negados pela empresa. De um lado, está uma mulher chorando pela perda de seus direitos. Do outro, está um atingido homem recebendo dinheiro de um representante da barragem.

Eixo 3: Água e energia

Foto: Vinicius Denadai

Foto: Vinicius Denadai

No atual modelo energético, a água e a energia se tornaram mercadorias, que geram lucros extraordinários para as empresas e prejuízo para os cidadãos. No Brasil, a principal fonte de geração de eletricidade é hídrica, que é a mais barata. Entretanto, os/as consumidores/as brasileiros/as pagam uma das tarifas mais caras do mundo. Além disso, os direitos das populações atingidas são tratados pelas empresas como custos que devem ser reduzidos.

Denominada “Afogadas pelo modelo energético”, esta arpillera foi costurada em agosto de 2014 por atingidas de todo o Brasil, que integram o Coletivo de Mulheres do MAB. Elas ressaltam três empresas: Gerdau, Tractebel e Vale. Esta última foi responsável pelo maior crime socioambiental da história do país: o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).

Eixo 4: Quebra dos laços comunitários e familiares

Foto: Vinicius Denadai

Foto: Vinicius Denadai

Com o deslocamento forçado de milhares de pessoas, os laços comunitários e afetivos são muitas vezes prejudicados ou rompidos. Vizinhos são separados por quilômetros e famílias são espalhadas entre diversas localidades. Além disso, toda a identidade da comunidade e das casas é dizimada por reassentamentos que, na maioria das vezes, são pré-fabricados pela empresa.

Esta arpillera foi denominada “Tratores Famintos” e também foi construída por integrantes do Coletivo de Mulheres do MAB em agosto de 2014, em São Paulo. O projeto de barragem é representado por tratores com fome, de boca aberta.

Eixo 5: Violência contra às mulheres e Prostituição

Foto: Vinicius Denadai

Foto: Vinicius Denadai

Com a ida de um enorme contingente de mão de obra, na sua grande maioria constituída por homens, os municípios que sediam as obras são afetados por um aumento exponencial no número de casos de violência contra a mulher, pedofilia e prostituição. De acordo com relatório da Plataforma DHESCA (2011), no município de Jaci Paraná (RO), onde está situado o canteiro de obras da Usina Hidrelétrica Jirau, os casos de estupros aumentaram em 200% desde o início das obras.

Esta arpillera se chama “Deita que eu quero” e foi elaborada por atingidas do município de Itapuã do Oeste (RO), em novembro de 2014. Elas lutam há 26 anos pelos direitos negados pela Usina Hidrelétrica Samuel. “Aqui mostramos como que as mulheres sofrem quando não querem fazer sexo forçado. Eles enchem as mulheres de filhos para ficarem em casas, e eles depois ganham o mundo”, relata a carta anexada à peça.

Eixo 6: Acesso a políticas públicas e Direitos básicos

Foto: Vinicius Denadai

Foto: Vinicius Denadai

Com a explosão demográfica decorrente da mão de obra que se desloca para trabalhar na construção das barragens, os já deficientes serviços públicos se tornam ainda mais escassos. Educação, saúde e segurança pública são alguns dos direitos que são prejudicados devido ao aumento populacional nos municípios que sediam as barragens.

Denominada “Políticas públicas com dignidade”, esta arpillera foi confeccionada em novembro de 2014 por atingidas do município de Francisco Beltrão (PR). Elas ressaltaram a superlotação da escola no município.

Programação

As obras ficarão expostas no CCJF entre os dias 7 de novembro e 2 de dezembro, das 12h às 19h – exceto as segundas-feiras. As visitações de grupos poderão ser agendadas anteriormente, de acordo com a disponibilidade das facilitadoras. Ademais, serão ministradas oficinas e rodas de conversa nas quais as atingidas ensinarão a técnica de confecção das arpilleras ao público interessado.

Haverá também, às 18 horas dos dias 29 de novembro e 1 de dezembro, duas exibições do documentário “Arpilleras: atingidas por barragens bordando a resistência”, que conta as histórias de dez mulheres atingidas por barragens de cinco regiões do Brasil. O longa-metragem foi premiado como melhor documentário no 44º Festival Sesc Melhores Filmes.

 

Por Guilherme Weimann, especial para o MAB