Padres emitem carta conjunta abordando a defesa da democracia e reafirmando a necessidade de uma cultura da paz

Arte: Divulgação/Web

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Religiosos católicos são veementes em criticar os movimentos políticos conservadores que dão origem a um novo fascismo em todo o mundo e denunciam os riscos que a democracia brasileira corre a partir da escolha do eleitorado neste domingo.

Um grupo formado por padres diocesanos e religiosos de diversas dioceses, congregações e institutos de vida consagrada de todo o Brasil, refletindo e se unindo a favor da democracia e dos valores evangélicos, publicou uma carta aberta dirigida à população brasileira nesta quinta-feira, 25. O documento, assinado inicialmente por 133 padres, devendo contar com mais adesões nos próximos três dias, aborda de forma concreta o segundo turno da eleição presidencial.

– A fé cristã exige de nós uma firme postura diante do mal -, afirma o texto. “Os seguidores de Cristo não podem se permitir corromper por interesses, sejam eles ideológicos ou econômicos”, acrescenta. “Muito mais escandaloso, então, é a possibilidade de que os discípulos e discípulas de Jesus se permitam motivar pelo ódio contra as minorias, já tão esmagadas em nosso país”, completa.

Os eixos centrais que nortearam os debates, deram origem a um documento mais amplo, que foi encaminhado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e ao Vaticano, colocando em pauta o papel da Igreja Católica no processo de enfrentamento à ditadura (1964-1984) e na redemocratização, o contexto atual e o perigo para a democracia, bem como o questionamento a respeito de quais vozes proféticas tem se manifestado em nosso tempo.

Quanto às candidaturas de Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, embora não sejam citadas nominalmente, a opção dos religiosos é clara ao aconselhar em qual candidato um cristão não deve votar: “Deixar de lado a democracia para acolher e confiar num discurso de um candidato que possui uma fala extremamente excludente e marcada pela violência, é abandonar o Evangelho e colocar a esperança em falsos deuses”, apontam os religiosos em seu texto, pedindo ao povo que não abra mão “da democracia, que a duras penas resgatamos após um regime militar autoritário e ditatorial”.

Confira o documento na íntegra:

 

 

Carta Aberta

Brasil, 25 de outubro de 2018

 

Padres brasileiros e o grave momento político:

Uma palavra à luz da evangélica opção pela vida e a paz

 

Queridos irmãos e irmãs, somos um grupo de padres que teme pelo destino político que está sendo gestado para o Brasil. No corrente ano de 2018, depois de uma campanha marcada por mentiras, “Fake News”, e por manifestações claras de ódio e de indiferença quanto ao diálogo, nós queremos recordar ao povo que nos foi entregue, nossa firme convicção pelos valores evangélicos.

A fé cristã exige de nós uma firme postura diante do mal. Os seguidores de Cristo não podem se permitir corromper por interesses, sejam eles ideológicos ou econômicos. Muito mais escandaloso, então, é a possibilidade de que os discípulos e discípulas de Jesus se permitam motivar pelo ódio contra as minorias, já tão esmagadas em nosso país. Os pobres, sem teto, sem trabalho, sem o mínimo de dignidade humana são nossos senhores e sem eles, nenhum de nós poderá chegar à comunhão com Cristo (Mt 25,31-46).

As minorias são muitas nesse país marcado pela desigualdade: os negros e quilombolas que enfrentam o preconceito e a desigualdade de condições sociais; as comunidades indígenas que lutam para sobreviver; os grupos LGBTs tão perseguidos, desrespeitados e marginalizados; os imigrantes que buscam uma nova vida em nosso país; as mulheres que, ainda hoje são violentadas e ficam em cargos secundários na sociedade. Todos esses grupos, e outros que sofrem injustiça são expressão de Cristo crucificado entre nós.

Tendo em vista essas realidades, sabedores que somos da enorme crise ética pela qual passamos e pela desconfiança de grande parte da população em relação às instituições democráticas, pedimos ao nosso povo que não arrisque abrir mão da democracia, que a duras penas resgatamos após um regime militar autoritário e ditatorial. Deixar de lado a democracia para acolher e confiar num discurso de um candidato que possui uma fala extremamente excludente e marcada pela violência, é abandonar o Evangelho e colocar a esperança em falsos deuses.

A democracia brasileira é recente e precisa constantemente ser melhorada. Não esqueçamos que a democracia não é o regime político onde a maioria manda e as minorias se calam. Ou, em casos extremos, onde a maioria procura exterminar as minorias. A democracia é o sistema em que todos têm seus direitos e deveres assegurados, pois cada ser humano é reconhecido em sua dignidade.

Como servos do povo de Deus que não podem deixar morrer a voz profética da Igreja, pedimos ao nosso povo que não se permita manipular por ideologias totalitárias. Os cristãos são movidos pelos valores do Evangelho, são pobres de espírito, pacificadores, mansos de coração, têm fome e sede de justiça, são misericordiosos, são construtores da paz e, se preciso for, são perseguidos por defender esses valores que brotam do coração do Evangelho (Mt 5,1-11). Pedimos ao nosso povo que trabalhe pela paz e assegure a democracia que garante nossa liberdade, abrindo mãos das lógicas de violência e de todo e qualquer tipo de preconceito e de ódio.

Somos um grupo formado por padres diocesanos e religiosos de diversas dioceses, congregações e institutos de vida consagrada de todo o Brasil, refletindo e se unindo a favor da democracia e dos valores evangélicos.

 

 

Por Rede Soberania