Guardiãs e guardiões de sementes da Liberdade realizam Encontro no Sergipe

Sergipe

Registro realizado durante o Encontro: Foto: Daniela Bento

Plantar, colher, guardar e distribuir não só sementes, mas também conhecimentos, essa é a missão dos Guardiões das sementes crioulas. Com esta perspectiva, aconteceu entre os dias 16 e 17 de março, 2017, na Unidade de Produção Camponesa do MPA, localizada no município de Canindé do São Francisco o Encontro Estadual dos Guardiões e Guardiãs das Sementes da Liberdade e Encontro Territorial do Programa de Manejo da Agrobiodiversidade de Sementes do Semiárido, com o tema “Semeando a Rede Sementes da Liberdade”, o evento envolveu entidades da sociedade civil, redes e movimentos, além de entidades de pesquisas que vem discutindo o tema das sementes crioulas no Estado do Sergipe.

O evento faz parte das ações previstas pelo Programa de Manejo da Agrobiodiversidade de Sementes do Semiárido da Articulação Semiárido (ASA), que no Estado é executado pela Sociedade de Apoio Sócio Ambientalista e Social (SASAC), porém contou com o apoio e realização do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) no Estado e da Rede Sergipana de Agroecologia (RESEA), bem como, guardiões e guardiãs do território do Alto Sertão e Sertão Ocidental para a sua realização.

Entre os objetivos do Encontro está a troca de experiências e a interação entre os guardiões de semente, que trouxeram suas realidades para mostrar a importância das sementes para suas vidas. Cada guardião e guardiã trouxe suas experiências com as Casas de Sementes e os benefícios que estas trouxeram para suas respectivas comunidades.

Entre as discussões, refletiu-se acerca dos principais desafios enfrentados pelos guardiões nos últimos anos.  A escassez das chuvas foi o primeiro ponto apontado, pois a falta da chuva implica em perda da colheita e respectivamente das sementes que foram semeadas. A questão do agronegócio e todo seu pacote de tecnologias, que inclui os agrotóxicos e transgênicos também foi um problema muito destacado.

O Encontro contou ainda com a participação de Diogo, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Tabuleiros Costeiro e Núcleo de Agroecologia da Embrapa, que destacou a importância do evento:

– “Para nós esse encontro de guardiãs e guardiões de sementes é uma oportunidade muito significativa pra ver como os princípios da conservação eles começam a ser compartilhado entre o agricultores. Por que muitos guardiões e guardiãs apesar de guardarem sementes a muito tempo, não tinham essa informação da importância do papel de guardião, da importância da semente que ele cultiva para comunidade e para outras organizações e entidades e comunidades de agricultores. Ele considerava que essa semente era importante para ele apenas. Então a partir desse momento da socialização em momentos como esse, o guardião se autorreconhece como guardião, e a importância do seu trabalho para conservação das sementes crioulas, que são sementes que tem tradição, que tem história de cultivo pelas famílias camponesas, e que por isso tem uma importância no fortalecimento dessa agricultura camponesa agroecológica que vem crescendo junto às entidades de agricultores familiares.

A professora Eliana Dalmora, do Instituto Federal de Sergipe (IFS) destacou o Encontro como um momento importante para refleti sobre a conjuntura atual e os desafios referentes aos cortes de orçamentos que culmina com a descontinuidade do financiamento do projeto em questão e da própria assistência técnica.

Por sua vez, Lanna Cecília, doutoranda em agronomia e militante do MPA, destacou como ponto relevante do Encontro, a forte confirmação do conhecimento e dos saberes dos guardiões e guardiãs, que partindo de uma analise de conjuntura refletiu ‐se os riscos com as percas dos direitos conquistados, caso seja aprovada a reforma da previdência. Para ela esse momento foi de grande valia, percebe-se o quanto o Campesinato esta consciente do seu papel e da importância da sua resistência.

Luiz Mário, coordenador do Projeto de Sementes da Agrobiodiversidade, Sementes do Semiárido, destacou o quão importante a perspectiva da criação de uma Rede de Guardiões da Semente da Liberdade, acolhida por todos os guardiões presentes, essa Rede teria o objetivo de articular os guardiões do Estado, buscando fortalecer a produção das sementes crioulas, dando-lhes maior liberdade e autonomia.

Como fruto do Encontro delibera-se para a criação de uma comissão com representantes dos guardiões e das organizações para pensar a Rede Sergipana de Guardiões das Sementes da Liberdade, a necessidade de fortalecer o compromisso individual na luta coletiva e participar da Campanha do MPA intitulada “Adote Uma Semente”, bem como, reforçar a luta contra a reforma da previdência e por último, abraçar a luta por políticas para o enfretamento da seca com participação no Acampamento da Seca, que terá inicia no dia 21 de abril no município de Aracaju.

O desfecho do Encontro se deu em clima de festa e religiosidade. Em procissão com São José, santo aclamando pelos camponeses como responsável pelas chuvas, os guardiões empunhando suas sementes, caminharam para fazer a troca de sementes, um momento místico, envolto de simbolismo, alegria, reciprocidade e generosidade, adjetivos que regem a vida daqueles que preservam e guardam as sementes da liberdade, sementes do futuro.

Por Comunicação MPA e Daniela Bento –  Centro Dom José Brandão de Castro (CDJBC) e Rede de Comunicadores (as) de Sergipe