Extremistas atiram contra acampamento de Curitiba: militantes foram feridos

Charge produzida por Carlos Latuff.

Charge produzida por Carlos Latuff.

Pela segunda vez ativistas pró-Lula são atacados com armas de fogo, dessa vez pessoas saíram feridas, pelo menos um militante com gravidade.

O sábado, 28, amanheceu com mais uma notícia triste, que referenda as denúncias reiteradas da evidente desconstituição do sistema democrático antes vigente no Brasil. A referência, porém, desta vez não versa sobre os atos de perseguição política e jurídica empreendidos contra Luiz Inácio Lula da Silva, mas sim dos expedientes de violência armada praticados por extremistas de direita contra os ativistas pacíficos que empreendem suas atividades na capital paranaense, mantendo vigília em defesa da libertação do ex-presidente. Nesta madrugada o acampamento que leva o nome da finada esposa de Lula, Marisa Letícia, no bairro Santa Cândida, foi atacado a tiros e dois ativistas saíram feridos no atentado, uma mulher que foi atingida por estilhaços de um disparo contra as estruturas do acampamento e um homem que foi alvejado no pescoço e teve de ser internado no Hospital do Trabalhador na capital paranaense em estado que inspira cuidados. Conforme testemunhas, pelo menos 20 disparos foram desferidos contra o acampamento.

Apurações estão em andamento e a Rede Soberania está em contato com colegas da imprensa nacional e internacional que estão trabalhando em Curitiba para levantar maiores informações sobre o caso. A senadora paranaense Gleisi Hoffmann fez um comunicado em vídeo logo cedo comentando o fato e dando informações sobre o ativista ferido, que foi alvejado no pescoço. “Essa intolerância está levando o Brasil a uma situação lamentável, é uma violência contra os movimentos sociais, que tem se dado na política, ela é resultado desse processo construído de perseguição contra o presidente Lula, contra o PT e contra os movimentos de esquerda”, declarou Gleisi, responsabilizando concretamente quem incita o ódio e a violência pelo ataque desferido contra a militância, desde as instâncias oficiais que se omitem de suas responsabilidades legais em agir contra os agressores que já vem se mostrando desde os atos de hostilização e o primeiro atentado com arma de fogo desferido contra a Caravana de Lula no Paraná.

– No acampamento estávamos na porta na segurança, um carro passou e voltou atirando -, informa o segurança que estava no local e acompanhou uma das vítimas ao Hospital do Trabalhador. Segundo ele, o sindicalista ferido estava consciente, teve perda de muito sangue, porém a bala não teria ficado alojada.

Foto: Neudicleia de Oliveira / Brasil de Fato

Foto: Neudicleia de Oliveira / Brasil de Fato

Gleisi relembrou inúmeras situações de violência que tem sido desencadeadas contra ativistas e lideranças vinculadas ao campo progressista, citando mortes no campo, de líderes camponeses, sindicalistas, indígenas e – a mais recente – o assassinato da vereadora Marielle e de seu motorista na cidade do Rio de Janeiro. Para ela, o campo político também tem responsabilidade, especialmente os políticos que tem agravado os ataques e incentivado a violência em sua linha discursiva.

Por volta das 9 horas da manhã a organização da Vigília Lula Livre emitiu uma nota oficial sobre o atentado, denunciando que desde que a Justiça obrigou a mudança do local do acampamento, retirado das imediações da sede da Polícia Federal, onde Lula cumpre o mandado de prisão, agressões tem sido registradas cotidianamente: “No fundo, é uma crônica anunciada. Desde o dia quando houve a mudança de local de acampamento (17), cumprindo demanda judicial, integrantes do movimento social haviam sido atacados na região. Desde aquele momento, a coordenação da vigília já exigia policiamento e apoio de viaturas, como foi inclusive sinalizado nos acordos para mudança no local do acampamento” expressa a nota.

– Nós desmanchamos o acampamento cumprindo ordem oficial, fizemos a opção de ir para um terreno e seria garantida a segurança -, destaca o presidente do Partido dos Trabalhadores no Paraná, Dr Rosinha. “Agora o que cobramos da Secretaria de Segurança Pública é investigação, que identifique o atirador”, enfatiza o integrante da coordenação da vigília.

A nota emitida pela organização reforça a continuidade das atividades e conclama a militância a portar-se com coragem e determinação contra as agressões sofridas. “Seguiremos com nossas atividades, lutas, programação e debates da vigília. A cada dia vai se tornando cada vez mais impressionante como, mesmo preso, a figura do ex-presidente Lula, a força moral que ganha, as denúncias contra a injustiça de sua prisão, tudo isso causa desespero nos seus algozes”.

Última atualização – 15h50min: Informações preliminares dão conta que o ativista ferido no pescoço é Jeferson Lima de Menezes, ligado ao movimento sindical de São Paulo. Perto do meio-dia o Partido dos Trabalhadores informou que ele deve seguir internado no Hospital do Trabalhador em Curitiba, embora o estado ainda inspire cuidados, já não corre risco de morte. Peritos da Polícia Cientifica do Paraná, policiais militares e da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil, estiveram no local e recolheram cápsulas de pistola 9 mm, munição de uso exclusivo, com alto poder destrutivo. Foi aberto um inquérito para apurar o caso.

1º de Maio confirmado! Apesar do atentado ao acampamento, atos de 1º de Maio serão mantidos em Curitiba. Os movimentos sociais e sindicais reunidos em Curitiba em vigília ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiram manter a agenda de programações culturais e políticas e os atos deste 1º de Maio. A segurança será reforçada e serão colocadas câmeras para registrar movimentos em torno do acampamento. A concentração das centrais (CSB, CTB, CUT, Força Sindical, Intersindical, Nova Central e UGT) será na Praça da Democracia, no centro histórico de Curitiba. Além de integrantes das frentes Brasil Popular e Povo sem Medo e políticos de diversos partidos, também são esperados sindicalistas de Argentina, Paraguai e Uruguai, entre outros países.

Repercussão:

Manuela D’Ávila, pré-candidata à Presidência da República pelo PCdoB se manifestou através do Twiter, comentando o caso: “Os tiros que atingiram duas pessoas, nessa madrugada, no Acampamento, em Curitiba, são consequência do ódio semeado nas redes e da total ausência de esclarecimento sobre o episódio similar com a caravana de Lula”, escreveu em sua conta. Pouco depois, ela teceu uma crítica ao deputado federal e também pré-candidato Jair Bolsonaro, que teve o nome gritado pelos agressores que atacaram o acampamento: “No Brasil que eu quero viver tiros são não são disparados contra quem faz politica. Esses tiros são uma ameaça a democracia!!! Lembram do episódio de Bolsonaro simulando tiros ao boneco de Lula? O que ele pensa sobre isso? Calará como no episódio de Marielle?”.

Guilherme Boulos, pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL também registrou sua indignação através de manifestação via Twiter: “Absurdo! Duas pessoas feridas após atentado a tiros contra o acampamento #LulaLivre em Curitiba”. Na publicação o dirigente do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) reafirmou o clamor por apuração e punição aos culpados, o que vem fazendo desde que as primeiras cenas de violência foram registradas na passagem da Caravana de Lula pelos estados do Sul. “Nossa solidariedade aos militantes e exigimos punição dos responsáveis. É preciso barrar a escalada de violência fascista no Brasil” acrescentou.

Ciro Gomes, presidenciável vinculado ao PDT, ex ministro do governo Lula, também emitiu nota repudiando o atentado. No texto, compartilhado via imagem em suas redes sociais ele manifesta: “É absurdo o atentado a tiros contra militantes em Curitiba. Não podemos tolerar que a violência seja usada como forma de expressão de antagonismos na política.”. Para Ciro, “é imperativo que a polícia do Paraná esclareça e traga a justiça os responsáveis”. O trabalhista relembrou em sua nota a falta de punição aos assassinos da vereadora Marielle Franco e aos agressores da caravana de Lula que efetuaram disparos de arma de fogo contra o ônibus da imprensa que acompanhava o ex-presidente. Segundo ele, a impunidade favorece “que crimes como esses se repitam”.

Roberto Baggio, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores rurais Sem Terra (MST) comentou À reportagem do jornal Brasil de Fato que “essa violência é mais uma iniciativa da elite golpista, conservadora e branca, curitibana e brasileira, que é responsável pelo período de violência e de crise social e política, que eles produziram com o golpe”. O dirigente camponês ainda acrescentou que ações extremas como essa são resultado de um quadro de caos que as forças conservadoras promoveram na política e na economia. “Mantemos nossa capacidade enquanto luta popular, de manter resistência, de fazer vigília e ser solidário ao Lula até sua liberdade”, concluiu.

Dr Rosinha, presidente do Partido dos Trabalhadores no Paraná falou à imprensa no início da tarde, acentuando que “sempre fizemos disputa política e ideológica e nunca vi tamanha agressividade aqui no Paraná e no Brasil”. Para ele, todos precisam se preocupar o discurso em apologia a este tipo de comportamento manifestado por um pré-candidato de extrema direita (Bolsonaro) que não tem medido palavras no sentido de inflamar cada vez mais seus seguidores. “Nós, ao contrário, temos feito manifestações pacíficas”, esclareceu Rosinha, lamentando que mesmo assim seguem as agressões físicas e psicológicas contra a militância de esquerda. Referindo-se a outro atentado contra os apoiadores de Lula, durante caravana pelo estado do Paraná,  afirmou que essa situação de violência foi precipitada pela Polícia Federal desde a noite da chegada do ex-presidente Lula em Curitiba, no último dia 7. “Nós não atentamos contra a vida de ninguém, por isso faço um apelo: vamos fazer uma disputa política, no debate. A violência não vai nos levar a nada, a não ser a vítimas, a lágrimas, ao choro”, finalizou.

Regina Cruz, presidenta da Central Única dos Trabalhadores no Paraná (CUT-PR), informou que, além da presença policial no espaço, haverá reforço na segurança por parte dos próprios movimentos no local, instalação de câmeras de vigilância e a identificação de carros que se aproximam do local cujos motoristas ofendam ou ameacem as pessoas que estejam ali presentes. Ela lembrou que os militantes do acampamento têm sido alvo de ameaças constantes por parte de transeuntes que circulam pelo local. Ela também reafirmou que, apesar do ocorrido, os movimentos seguirão em mobilização permanente contra a prisão de Lula. “Vamos manter o 1º de Maio, a vigília, o acampamento. Nada mudou”, finalizou.

Carlos Latuff, cartunista, relembrou Bertold Brecht e fez uso de palavras fortes para acompanhar a postagem de uma charge igualmente forte que produziu nesta manhã: “O (mais novo) atentado à bala contra os apoiadores do ex-presidente Lula, acampados em Curitiba, me faz lembrar Bertoldt Brecht: A cadela do fascismo está sempre no cio“. Antes, o artista já havia se pronunciado duas vezes comentando o episódio. “Já foi tempo em que crime político a tiros era coisa de coronelismo interiorano, característico dos rincões mais atrasados do país”, escreveu. No mesmo texto, a reflexão proposta critica a segurança da capital paranaense e o personagem que tem exercido o papel de antagonista na perseguição jurídica que foi imposta ao ex-presidente Lula: “Disparam contra o acampamento Lula Livre em plena República de Curitiba, a capital modelo, lar da Lava-Jato e do glorioso juiz Sérgio Moro”. Para o artista, que tem construído através de seus desenhos uma crônica gráfica do nosso tempo, “no Brasil dos dias de hoje apoiar o Lula significa correr risco de morte!”

 

Por Marcos Corbari | Jornalista | MPA | Instituto Padre Josimo | Rede Soberania

Com informações da Agência PT de Notícias, jornal El País, assessoria da CUT, Rede Brasil Atual e assessoria da Vigília Lula Livre.