Em memória de Jara e Vlado: aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta

Foto: Divulgação/Web

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As notícias da semana nos fazem relembrar o jornalista Vladimir Herzog e o cantor Victor Jara, vítimas da violência dos estados de exceção no Brasil e Chile.

Tempos estranhos estes que vivemos em nossa madre América. As forças conservadoras que sangraram nossa história com a mão pesada da violência em pleno coração só século XX tem voltado a se manifestar pelos expedientes ocultos do embate simbólico neste nosso ainda incerto século XXI. Nesta semana, porém, justamente o campo simbólico trouxe algum alento, fez crer que a luta vale a pena e, em nome de cada um caído nos tempos de lá ou nos tempos de cá, nós que aqui estamos devemos seguir em frente por mais árdua que pareça a peleia.

A primeira lembrança vem desde o Chile, onde a voz do poeta e cantor Victor Jara foi calada pelo criminoso Pinochet e seus capangas fardados. Poucos dias após esmagar o florescente socialismo de Allende, em 1973, o exército chileno calaria a voz do professor, pesquisador, poeta, violeiro e cantor mais representativo, sem o saber que seus versos seguiriam na voz do povo como extensão de seu pensamento e de seus sonhos. Mesmo destino foi selado ao dirigente do Partido Comunista chileno, Littrè Quiroga. Passaram-se 45 anos até que um tribunal fechasse a conta com uma sentença, mas ela chegou com palavras de condenação: os 8 militares responsáveis pela detenção, tortura e assassinato dos dois militantes foram condenados a 18 anos de prisão – Hugo Sánchez Marmonti, Raúl Jofré González, Edwin Dimter Bianchi, Nelson Haase Mazzei, Ernesto Bethke Wulf, Juan Jara Quintana, Hernán Chacón Soto, Patricio Vásquez Donoso – , enquanto o oficial acusado de encobrir o crime – Rolando Meno – , foi condenado a cinco anos e 62 dias.

A segunda surge nos noticiários deste nosso Brasil, em meio ao golpe jurídico-parlamentar que volta a por nossa frágil democracia sob ameaça. Trata-se da condenação do estado brasileiro pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (CorteIDH), motivada pela omissão frente ao assassínio do jornalista Vladimir Herzog em cela da polícia política, em 1975, então alardeada como suicídio. Aqui não há assassinos nomeados, todos encobertos pela infame covardia do anonimato. Como não se digna nominar os agentes, paga a oficialidade a que estavam submetidos ao mando: para a Corte, o Estado é responsável pela violação ao direito de “conhecer a verdade e a integridade pessoal” em prejuízo das famílias do jornalista assassinado. Nas entrelinhas da sentença se pode ler a verdade nua e crua a partir da falta de investigação, julgamento e sanção dos responsáveis pela tortura e assassinato de Herzog e, em seu nome e sobrenome, ali representadas as milhares de palavras caladas pelo viés da violência quando não se havia mais competência de argumento para o embate justo de ideia. A Corte impõe ao Brasil a reabertura do caso, a instauração de processo de apuração adequada e anula os benefícios de eventuais tutelas vencidas (anistia ou prescrição) por se tratar de um crime contra a humanidade.

As penas são tímidas, os indicativos singelos. Mas em tempos nublados como estes que convivemos, já são alento. Seguimos a luta diária, preservando a memória dos que nos foram tomados, semeando a história para que os crimes não se repitam e os dias futuros sejam de céu aberto e campo livre, para voar nossos sonhos e semear as melhores utopias. É bem como diz as palavras de ordem reproduzidas no título deste texto: por cada um de nossos mortos nos comprometemos a nenhum minuto de silêncio e sim a uma vida inteira de luta.

 

Por Marcos Antonio Corbari – Jornalista, militante do MPA, colaborador do jornal Brasil de Fato/RS e integrante do coletivo de comunicação popular Rede Soberania.

Com informações da Carta Capital, Portal Vermelho, PSTU e Correio do Povo.