Rosana de Oliveira com uma indígena durante o Acampamento. Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Rosana de Oliveira com uma indígena durante o Acampamento. Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Rosana de Oliveira tem 53 anos, mora na Zona Sul do Rio de Janeiro, professora de música na Faetec – Fundação de Apoio à Escola Técnica e, professora também de música pela SME – Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, pianista-tecladista e militante pelo PT.

Assim que foi decretada a prisão de Lula Rosana sentiu uma necessidade enorme de ir ao acampamento Lula Livre em Curitiba. Como já conhecia alguns movimentos organizados, como o MTST no Rio de Janeiro, buscou conhecer mais de perto quem são as pessoas que estão fazendo a resistência da Classe Trabalhadora neste momento histórico.

Após a estadia de alguns dias ela faz o seguinte relato:

 

Um pouco da experiência vivida aqui em Curitiba neste fim de semana

Estou no ônibus de volta para o Rio.

 Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Hoje à tarde, ao arrumar minhas coisas, tive o privilégio de conversar com tranquilidade com M e C, no acampamento. Conheci M e C ontem, sábado, enquanto eu ajudava a descascar bananas para a sobremesa do almoço perto da Policia Federal. Os dois estavam de paquera. M tem 22 anos, parece um menino. É do MPA, Movimento dos Pequenos Agricultores. Mora com os pais, e cultivam um pequeno espaço de terra em Cascavel e tem uma vaquinha. Um sitiozinho, como ele se referiu. M diz que as dificuldades com o alto preço de produtos necessários para o plantio fizeram M entrar para o movimento junto com os pais.

A fim de cobrar melhores condições para eles e outros pequenos agricultores. M diz que nos governos do Lula e Dilma as condições da família melhoraram muito. M fez três vezes o 3º ano do ensino médio para não sair da escola. Gostava de lá rsrsrs. Curtiu demais um professor de história que substituiu uma professora licenciada que só usava o livro. O professor não usava livros e abria debates. M acha que aprendeu muito mais assim. Agora M quer fazer Geografia ou Sociologia. Adora cozinhar pois aprendeu desde os treze anos para ajudar em casa. M ainda trabalha conduzindo máquinas de plantio em terras vizinhas. Quando avisou aos pais que viria para o acampamento Lula livre, logo obteve o apoio. M fala bem, com sotaque interiorano, adora os acampamentos, ajudar na cozinha, onde se acha hábil.  Gosta de conversar sobre Lenin, Trotsky e Marx. Admira um amigo que toca violão nos acampamentos e versa muito bem sobre os três personagens. Gosta de tudo isso, mais do que sair com amigos no centro da cidade.

 Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

C é do MST junto com os pais. Os pais cansaram de trabalhar em fábricas e foram para a agricultura. Fizeram uma pequena casa em terreno do MST. C tem 17 anos e terminou o ensino médio ano passado. Ela diz que a escola do MST é muito legal. Os professores vêm da cidade e com poucos alunos por turma, andam de mesa em mesa fazendo um atendimento quase individual. C quer fazer Agronomia ou Veterinária, diz que abriu uma faculdade perto onde mora. Sabe que é difícil passar, mas quer estudar e tentar. Ao contrário de M, C quer ficar na cidade e acha que com sua profissão poderá ajudar no campo. Dois jovens como outros que acessam a internet e tem sonhos. Caminhos diferentes: M quer o campo, C a cidade.

Em Curitiba recebemos buzinaços de apoio e também gritos de “Vai trabalhar vagabundo!” Fico pensando em quantas vezes M e C ouviram isto de seus acampamentos do MST e MPA. São M e C, vagabundos?

Há um rodízio grande no acampamento Lula-livre por questões de trabalho é claro.  Mas existem donas de casa, estudantes, aposentados, professores curitibanos e de outras cidades se organizando de acordo com a flexibilidade de seus horários e desempregados de Temer.

Eu fui pra Curitiba com duas colegas professoras. Na nossa primeira participação em marcha indo para a PF, ouvimos num dia de feriado: “vai trabalhar vagabundo (a)! ” São covardes porque gritam de carros em velocidade. São dignos de pena porque amam ao contrário, o que é horrível. São dignos de pena porque não suportam o vazio de si mesmos, mas sobretudo, são pessoas que desconhecem o (seu) próprio povo.

Acho que o que mais me entristece nessa conjuntura que vivemos hoje, é a certeza que a máscara caiu. Não é só a elite do dinheiro que não gosta do povo e não tem projeto de nação, mas o povo brasileiro não ama o seu próprio povo.

 Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Foto: Arquivos Rosana de Oliveira

Convido àqueles que marginalizam os trabalhadores, que façam como curiosos que chegam no acampamento para saber quem somos. Convido aos que se julgam trabalhadores do Brasil, a conhecer o organizadíssimo MST, o MTST, o MPA e outros movimentos organizados.

Ao me despedir dos companheiros, fiquei à espera da minha carona para a rodoviária quando soou bem forte de um carro em alta velocidade: “cambada de vagabundos!” Eu pensei: “calma bolsonaristas que espancaram acampantes na semana passada, calma MBListas, estou voltando pra sala de aula!”

Em seguida uma fileira de carros fez um buzinaço e gritaram: “Lula Livreeee!!!” Nós respondemos: “Lula Livreeeeeee!” Show de bola!

Muita movimentação me impediu de encontrar os meninos novamente. Mas continuei com a intenção de conversar com as pessoas que participam mais ativamente do acampamento. Passam alguns dias e me questiono sobre motivos que as levam a ajudar, o que fazem e etc.

Voltei a Curitiba para o 1º de maio.

 

Relato de Rosana de Oliveira

Por Comunicação MPA