A feira de Santa Maria reafirma que um outro mundo é possível. Mais que isso, que é necessário!

Irmã Lourdes Dill e as crianças. Foto: Assessoria da Feicoop/Ecosol

Irmã Lourdes Dill e as crianças. Foto: Assessoria da Feicoop/Ecosol

Sempre solícita e carinhosa com quem a rodeia, Irmã Lourdes Dill, coordenadora do Projeto Esperança/Cooesperança e vice-presidente da Cáritas Brasileira, atendeu o coletivo de comunicação do Movimento dos Pequenos Agricultores logo após os pronunciamentos de abertura da 13ª Feira Latino Americana de Economia Solidária e a 24ª Feira Internacional do Cooperativismo, em Santa Maria (RS). A imagem aparentemente frágil da freira dá lugar a uma figura humana repleta de força e legitimidade em seus ideiais quando começa a falar. Amparada pela frase emblemática do Papa Francisco pronunciada na Bolívia em 2016, evocando o sentido da igreja em defender ao povo o acesso a terra, trabalho e teto, Dill coloca-se na linha de frente da recuperação do sentido de ser do ser humano, frente ao ter pregado pelo capital, relembrando muito o que as instâncias mais progressistas da igreja aprenderam e ensinaram através das comunidades eclesiais de base (CEBs).

– Todos que chegam aqui merecem nossa atenção, nosso carinho e nossa saudação. Aqui estamos saudando a toda a economia solidária, a todos aqueles que lutam por um mundo justo e fraterno, que lutam neste nosso tempo por nenhum direito a menos -, afirma no começo da conversa, sem receio de demonstrar posicionamento frente aos fatos que colocam em risco direitos trabalhistas e previdenciários no cenário político brasileiro. Aliás, o viés militante fica claro quando a voz dirigente fala mais alto que a voz religiosa. “A economia solidária de fato é uma organização e um movimento profético, que busca um novo modelo para o desenvolvimento solidário, sustentável e territorial para o bem viver, mas um bem viver que tem que ser para todos e não para alguns”.

A essência do projeto de aliança camponesa e operária, proposta pelo MPA, também está presente na fala de Irmã Dill: “Esse bem viver se viabiliza onde tem organização, onde tem produção ecológica, onde tem possibilidade de um consumo solidário, mas onde tem também a possibilidade de um comércio justo”, ao que acrescenta com um grande sorriso nos lábios, o desejo de viabilizar esse espaço de comércio justo tanto para o campo quanto para a cidade, unindo a agricultura camponesa e o trabalhador urbano.

A missão de levar adiante projetos que dialogam com camadas excluídas do sistema mantido pelo grande capital é desafiadora. Mas a força da causa mantém a religiosa firme: “Por isso nossa resistência é tão grande, nós tivemos muitas peripécias e dificuldades ao longo do caminho, mas nos apegamos ao legado de um homem que é profeta, Dom Ivo, que sempre dizia que nunca podemos desanimar, que o desafio é persistir e lutar, resistir com força e coragem”, declara, explicando que a feira sempre sobreviveu, “não sem dificuldades, mas com coragem, com profecia, agora já chegando as vésperas de jubilar seus 25 anos de existência e de resistência”.

– Nós somos referência em nível mundial não somente pelo projeto Esperança, mas principalmente pelo que representa a economia solidária e pelo que representa a agricultura familiar camponesa -, explica. A presença da igreja e, em especial, a figura do Papa, também são referenciadas: “Nós temos alguns segmentos da igreja, especialmente as CEBs que estão conosco nesta luta, mas precisamos destacar o fato de termos junto conosco ninguém menos que o Papa Francisco, que nos desafia a lutar por nenhum camponês sem terra, nenhuma família sem teto, nenhum trabalhador sem direitos, ao que hoje nós nos permitimos acrescentar o chamado do nosso tempo, por nenhum direito a menos”.

Ao se despedir, irmã Dill parafraseou um velho dito, relembrando que “se você quer planejar para um ano, plante cereais; se você quer planejar para 30 anos, plante árvores; mas se você quer planejar para 100 anos, plante ideias e motive a organização do povo”. Segundo ela, essa terceira opção é o objetivo das ações desenvolvidas pela economia solidária, pela projeto Esperança/Cooesperança e pela feira de Santa Maria e pelas dezenas de milhares de pessoas que fazem parte de sua constituição ou que passam pelos seus corredores.

Por Marcos Corbari Jornalista/MPA