A Fábula do Pangaré

Imagem: Marcos Corbari | Rede Soberania - MPA

Imagem: Marcos Corbari | Rede Soberania – MPA

Era uma vez.

Um prefeito de uma cidade interiorana, de um país chamado Brasil, que foi acusado de favorecer uma empresa que prestava serviços à prefeitura.

O prefeito, ao que dizem, gostava de cavalos para participar de rodeios, populares na região.

Então assim tudo se sucedeu.

A polícia acusou o prefeito de nomear o secretário de obras e o secretário de obras teria favorecido uma certa empresa (naquele lugar chamavam empresa de “firma”) e esta firma teria dado de presente um cavalo de raça ao prefeito por este favorecimento.

O promotor acreditou na história e a acusação chegou ao juiz da comarca, um juiz que diziam ser durão e este condenou o prefeito e o enfiou ele no fundo de uma cadeia isolada.

Parte do povo aplaudiu, parte apoiou o prefeito e grande parte ficou olhando de longe achando aquilo tudo muito estranho.

Alguém resolveu ler a lei que vigorava naquela região. Dizia na lei que o prefeito deveria ter agido diretamente no favorecimento da firma que ganhou o serviço. Mas quem assinou tudo foi só o secretário de obras.

“Ah, mas o prefeito devia saber”, disse a polícia, disse o promotor e disse o juiz e assim o prefeito foi condenado.

“Ato de ofício”, dizia a lei. Ato de ofício é quando um administrador público toma uma decisão e assina, assumindo pessoalmente a responsabilidade por aquela decisão.

“Foi um ato de ofício indeterminado” escreveram o promotor e escreveu o juiz, foi porque nomeou o secretário que em seu nome fez a sujeira.

“E se o secretário fez por conta? E se enganou e traiu o prefeito?”

“Azar, vai preso igual. Ninguém mandou nomear”.

“Mas não é isto que diz a lei”.

“É. Mas tem o cavalo. Ele recebeu o cavalo de raça. Está provado por várias testemunhas, inclusive pelo dono da firma que diz que levou o cavalo pessoalmente ao prefeito e que o cavalo custou bem caro. É um puro sangue inglês. E ainda com vários luxos junto”.

O prefeito falou, jurou, esperneou, disse que não recebeu cavalo de raça nenhum, que só tinha comprado um cavalo comum, à prestação, mas quando foram entregar era um pangaré* velho e ele não quis receber e exigiu o dinheiro de volta, que estavam mentindo para prejudicar ele, porque era favorito nas próximas eleições para prefeito, etc, etc, e tal.

Pediu para que fossem ver o pangaré velho e confirmar o que estava dizendo.

O juiz proibiu. Não era preciso olhar o cavalo. O que está dito é verdade e não precisa ver mais nada. Até nota fiscal o dono da firma mostrou, da compra do puro sangue, da sela de luxo, do lugar onde o bicho é banhado, da cocheira de luxo, ladrilhada, onde o puro sangue dorme e é tratado. Tudo provado. Não precisa mais nada.

E o prefeito foi condenado.

O prefeito pediu e implorou que outros juízes, de outra cidade, olhassem aquele caso e corrigissem aquela injustiça.

Não adiantou. Disseram os juízes da outra cidade: “está provado, está aqui a nomeação do secretário, está aqui a confissão do dono da firma e estão aqui as notas de compra do cavalo e seus luxos”.

Carimbaram: CONDENADO. E mandaram o prefeito para a cadeia, isolado, longe do povo. A rádio da cidade noticiou: “ladrão, tá provado, esqueçam este prefeito para sempre”.

Aí um grupo de pessoas conhecidos na cidade como “os sem cavalos” resolveu, por conta própria, ir lá ver onde deveria estar o cavalo puro sangue e seus luxos.

Foram, viram e fotografaram.

Só acharam um pangaré velho, abandonado, bebendo água suja num açudezinho mal feito, numa estrebaria tosca e mal construída.

Mostraram as fotografias do bicho para todo o povo do município.

E o comentário corre solto, de boca em boca.

“Tem armação nesta história. O prefeito não ia se vender por um pangaré daqueles.”

E cresce a gritaria para soltar o prefeito e colocar os caluniadores fantasiados de delegado, promotor e juízes na cadeia.

A rádio da cidade agora só toca música de corno e não fala do pangaré.

E a fábula ainda não terminou e ninguém é feliz já por muitos e muitos anos.

 

            *Pangaré: Cavalo de pouco valor, sem genética.

 

Por Frei Sérgio Görgen – Frade Franciscano, militante do MPA e autor do livro “Trincheiras da Resistência Camponesa”