A Democracia já não é mais um valor universal

Foto: Divulgação/Web

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Cada vez mais a direita desqualifica a democracia como valor universal. Essa conquista civilizatória está sendo erodida a cada dia, em todas as partes do mundo. O Brasil não está só neste quesito.

É visível que ao capital financeiro e à plutocracia não interessam mais os atributos da democracia representativa tal como a conhecemos: com eleições periódicas e um simulacro de representação nos Parlamentos. Simulacro (ou imitação barata) porque sabemos que a maioria dos parlamentares estão comprometidos com os seus financiadores de campanha e não com o seu eleitor direto e unipessoal.

O povo com as suas exigências em direitos sociais está atrapalhando os grandes negócios do capital. Por que então manter processos eleitorais caros, que dividem e antagonizam famílias, amigos e comunidades, que despem e iluminam as mazelas do sistema produtor de mercadorias? Todos sabem que a atividade política é a oficina do diabo. A política – diz a mídia todos os dias, a serviço da banca e da plutocracia – é o caminho mais curto para chegar à delinquência e ao banditismo organizado.

No Brasil, na Europa, nos Estados Unidos, em toda a América Latina, essa campanha continuada contra a política, contra a vida pública, e contra o processo democrático e seus desdobramentos correlatos é capitaneada pela mídia corporativa (com raríssimas exceções).

Com isso se agigantam as fórmulas ideológicas de encobrimento do real e do essencial. A aparência é tudo. A essência é uma ilusão de ótica. Tudo está recoberto pela fantasia, pelo consumo, pela imagem distorcida, e pela representação do espetáculo.

Vejam o Brasil do pós-golpe de 2016: desacreditando de tudo, enxergando falsidade em todos os lados da vida pública, setores mais delirantes, filisteus e paranoicos optaram por um falso líder, o mais inautêntico de todos, porque não é oriundo de nada, foi parido pelo acaso e posto como travamento à soberania do País. Era um deputado apagado e confuso do baixíssimo clero parlamentar, sem discurso algum (por que insulto não constitui discurso válido), um tipo folclórico improvável e risível, portador de um prognatismo que lhe deforma a pronúncia das palavras e lhe acrescenta um ar de tolo na multidão. Vejam que o capitão sequer é fascista, se o fosse, deveria reunir um programa de valorização “über” nacionalista consubstanciado em um projeto racista de mil anos. O “projeto” do capitão não resiste mil horas, tamanha a sua indigência em conteúdo e forma.

Mas por que o capitão ousou ascender ao primeiro plano da (sub) política brasileira do pós-golpe? Porque houve um flerte dos partidos da direita, sem votos e sem projeto nacional, com o próprio capitão. Agiram como o afogado que se agarra ao pau de enchente que flutua e o salva por algum momento da tragédia configurada. O Judiciário fez a parte que lhe tocava: anular Lula para a disputa eleitoral que se avizinhava, sob pretextos os mais politizados e os menos ancorados no Direito e na Justiça.

Não nos iludamos, caso Fernando Haddad vença a presente eleição presidencial, a direita não restará resignada e desarmada. Ao contrário, irá procurar, via Congresso e via Judiciário, novos recursos golpistas para desfazer a vontade popular expressa na eleição de 2018. Um pacto de classes pelo alto, como pretendido por setores conciliadores do petismo, sobretudo paulista, pode alcançar algum apelo provisório, mas na sequência será implodido pela sanha incontrolável do germe golpista que habita corações, mentes e bolsos da quase totalidade da direita brasuca.

Três grandes reformas avultam como urgentes, necessárias e imprescindíveis para a plena legitimação do novo governo nacional-popular: a reforma política, a lei de meios (que pode/deve secar completamente a torneira ubérrima de recursos do Estado para a mídia corporativo-familial), e a reforma do Judiciário, aí incluídas as instituições do Ministério Público e Polícia Federal (Executivo).

 

Por Cristóvão Feil – Sociólogo

Em 25 de setembro, 2018